QuartoInteiro
terça-feira, maio 30, 2006
  segredos
Todos os teus fãs de coisa nenhuma a se embriagar nesta linguagem esguia, sexy e bem lubrificada.
Turbinam-se entediados de uma sexta-feira qualquer solitária à margem de um rio fedido.
Com as mãos cansadas inundam com sêmem as águas que insistes em transformar em oceano vazio.
Sempre a duelar outras histórias e escárnios metódicos o desejo reprimido de cruzar uma boca de um canto ao outro.
Poucos sabem como eu sobre o efeito de uma simples pétala, palavras doces e uma taça de tinto no teu coração.
Queria ser menos, mas não posso.


No fundo, me divertes. Queria ser menos canalha e não gozar desse prazer tirado de matérias tão sórdidas, líquidas e rubras. Sou e pronto: canalha. As minhas palavras viram verbetes ao teu exagero disfarçado de sensatez e, como um verbo carnudo a circular guloso na pele do meu cotidiano, danço. Derrama teus versos sobre os lençóis brancos da minha cama e delira com masturbações pós-modernas.

Eu apenas observo e digo sim, sim, sim... peço mais, mais, mais. Sou cúmplice nessa utopia depravada. Sou quase (in)feliz.
 
segunda-feira, maio 29, 2006
  pensamentos curtos
"Que a importância esteja em teu olhar, não na coisa olhada."

(André Gide, Os Frutos da Terra)
 
sexta-feira, maio 26, 2006
  Rastros

Ele me deixou ardida no meio das pernas, latejando no compasso dum coração agitado. Me deixou mole, deixou, sim... e foi assim, subitamente, no auge. Deixou as frutas mordidas, o pescoço marcado, as minhas coxas arranhadas, todos os lábios inchados. Ele deixou uma voz que, quando escuto, escorro; a impressão da língua que sobe pelas pernas até a virilha. Deixou centenas de recados, bilhetes, cartas, versos, textos, histórias. Deixou um gosto por ficar de quatro, morder o colchão, chupar o dedo e me espalhar, ahhhhhhh!!!!!! de me espalhar, toda tonta e sem lugar. Deixou um gosto por linguerie ordinária. Preto, vermelho, rosa. Para ele vermelho era cor de puta. De puta de respeito, se me entende, me deixou dito isso também. Me deixou um gosto, um gosto de dizer pra ele, ah não!! hoje você não vai me comer não. Me deixou com vontade de trepar mal, com a vontade que um homem ruim me possuísse. Um homem ordinário, sim, um homem que me desconstruísse. me deixou com estes estranhos prazeres, estranhos legados. Me deixou com uma boca errática procurando uma língua errática e novos verbos. Me deixou com filho da puta, cretino, me fode, porra, cachorro, cachorro, deixou com palavras entaladas na minha Garganta Profunda. Me deixou nua na cozinha, de calcinha vermelha e sapato de salto. Me deixou como uma puta-palhaço. sozinha no espaço. Aos pedaços...
 
quinta-feira, maio 25, 2006
  Entre jogos e bocejos

Escuto o barulho da água escorrendo na pia. Depois, uma escovação prolongada, meticulosa. Toalhas, chuveiro, sapatos, louça.
Ela me olha pelo espelho. Acordo. Enquanto se arruma, andando de cá pra lá com sua xícara, ela se arrepia diante do espelho, tira a blusa e fica com as costas nuas. Ela suspira uma agonia qualquer. Ela tem agonias assim diante do guarda-roupa e seu silêncio às vezes me surpreende, às vezes incomoda, às vezes alivia. Ela não me olha e é quase como se não tivesse olhos de vez em quando. Ela pertence apenas a si mesma. Depois, liga o rádio e começa a comentar as notícias. É só agora que eu começo a existir para ela.

Eu não tenho mais paciência para notícias, ultimamente, não tenho espaço para mais informações. Eu tenho nela a notícia que preciso: a salvação para a bomba atômica; o futuro que não teremos; a ração que me alimenta; a alta do dólar; o milagre do cotidiano. Eu ando desligado e o torso dela, nu, tem uma poesia que não consigo escrever. Esse despertar me encanta e atordoa. Eu tenho não tenho sonhos freqüentes com ela, mas eu acordo nela, dentro. Eu fico pasmo. Eu não tenho boca quando estou assim com ela e as palavras escorregam. Acabo dividido entre a conquista do mundo e uma contemplação egoísta, mesquinha. E, finalmente, em alguns momentos começo a acha-la fútil. No fundo, sei que eu a invento.

Ela nem mesmo ela sabe. Ela nem quer saber. Ela tem uma superioridade qualquer tipicamente feminina, um zelo essencial por si mesma. Ela tem ignorâncias ao meu respeito que a deixam confusa. Ela é autofágica e dependente. Ela sabe que depende de mim do mesmo modo que dependerá de outro depois de mim. E outro, e outro e mais outro. Mesmo assim ela simula tranqüilidade e eu me espalho em cacos pelo quarto.

Eu sou um filme pior, um drama piegas, água com açúcar, mexicano. Ela é nouvelle vague, cinema noir. É tão fake quanto eu, é verdade, mas ela carrega esse elã pagão que absolve dos pecados carnais.

Vivemos numa luta constante. Inferno e céu. Dramas e citações. Abandonos e acolhimentos. Nunca menos que dois. Sempre divididos em desigualdades. Sempre com aparas e barro nas botas. Maus jogadores no pior sentido.

Mas é só com ela que eu me sinto respirando. E ando com falta de ar.
 
quarta-feira, maio 24, 2006
  ninharias, fetiches e lembranças

Vou seguindo o tempo em que te chamava: vem cá, nega! Senta no colo do teu homem, senta! E te puxava pelas ancas e beijava teu pescoço e me enroscava na tua cintura. E tu gemendo, nega, soltando uns gritinhos, uns gemidinhos que aumentavam e, me aumentando, eu sobrevoava o teu corpo com uma fome, uma fome metafísica, uma fome egocêntrica, uma fome anímica.

Lembro da primeira vez que nos vimos, do primeiro gesto. E gostei de tudo num estalo. É verdade que me apaixonei pelos teus peitos, minha musa. Juro que sim. Eu sei que é uma coisa estúpida de se dizer, uma coisa realmente estúpida, afinal sempre admiti minha predileção pela nobreza nestas áreas tão sentimentais. Mas é que não consegui desviar meus olhos dos teus peitos e sonhei com eles nos primeiros dias, nos segundos dias e nos últimos dias. Seios consistentes, volumosos, onde eu me divertia com inestimável conforto. Ressurgia em mim um prazer filial, erótico, freudiano, uma teoria psicanalítica inteira para justificar o fato de eu ficar horas sorvendo o teu líquido invisível. Você gozava nessa orgia psíquica, minha deusa, o prazer desta sucção quase maternal, um prazer tão etéreo que te fazia contorcer-se na cama e pedir maaaaaaaaaaaais.

No antegozo desta paixão atípica renasceram nossas bocas, os olhares, as palavras. As malditas palavras encrostadas na carne. Palavras que tatuavam em nossos corpos significados e cicatrizes (raramente apagadas com corretivo). Coração, eu lembro das palavras, de quase todas. E as atitudes vãs, os rasgos nas nossas costas, pedaços da minha pele nas tuas unhas negras.

Mas, sinceramente, prefiro amarrar minhas memórias no cheiro do sabonete de glicerina impregnado nas tuas virilhas, nas pintas espalhadas geograficamente pelo teu corpo - e de como eu gostava de contabiliza-las uma a uma. Engolir teus gozos, sentir os pelinhos do teu rabo roçando no meu nariz, chupar teu dedão e te fazer rir. (Você sabe qual é o gosto da Minâncora?)

Sim, tudo que me restou é este império de ninharias, fetiches e lembranças que, enfim, constituíram um dia o antro onde eu encontrei repouso para minha cabeça cheia de não-me-toques.
 
terça-feira, maio 23, 2006
  Trilogia do Adeus (3)
Qual dos dedos da mão direita você amputaria?

Tanta informação correndo neste jogo interativo e, no final, infelizmente, você jogará tudo para o alto. Tudo, tudo, tudo. No meio da jogada, lá está você de novo contando “vidas” para o próximo desafio. Não haverá próximo desafio. Vamos nós: nove, oito, sete.As coisas começam a ficar feias. Tudo passa muito rápido e seus olhos estão empedrados. E as mãos tentam acompanhar os movimentos, mas falta a destreza necessária. Nitidamente os pontos somem rápido. Seis, cinco O frio na espinha é um status para abandonar tudo, abominar, abismar tudo e sair do jogo. Mas, para onde você iria? Infelizmente, não há um botão para apertar. Este jogo tem regras tremendamente bem definidas. Você sabia desde o início onde estava se metendo. Quatro, três Sim, sabia, admita. Tantas variáveis estraçalharam os seus sentidos, e essa dor, essa dor apareceu no meio do jogo. Que dor é essa? Você se perguntou tantas vezes. Mantenha os olhos na tela para não perder mais que o óbvio. Seu jogo está por um fio. Dois. Quase tudo consumado, só resta o desespero de uma jogada genial, a prova de que você pode... Não, você não pode. Contudo, respire, respire, respire fundo e jogue melhor do que antes. Tecnicamente falando, você perdeu. Não importa, nada importa, agora o prazer é a insuportável areia nos olhos. tudo desmorona da forma mais previsível. Você sabia, sabia que era preciso evitar mais pensamentos durante o jogo. Seu erro foi pensar demais. Muita reflexão dá nisso. Prazer a gente consome e sentimentos racionalizados só geram jogadores ruins. Um. Agora o tempo é tudo; são apenas mais alguns movimentos verdadeiramente complicados e um fim é absolutamente certo: você perde. Olhar a tela é um passatempo. Depois, virá o escuro, um indeterminado movimento que fará sua cabeça rodopiar em vácuos de sentidos. Coisas e mais coisas numa tela. Ufffa!!! Ainda tem mais areia para os olhos. Os créditos dos cartões telefônicos acabaram. As lojas de conveniência, os bares, as farmácias e as pessoas estão todas fechadas.
Fim de jogo.
 
terça-feira, maio 16, 2006
  Súmula 4.0
11 horas de sábado. Dia ensolarado e frio. Tomam o café da manhã antes da caminhada de sempre. Fazia semanas que não trocavam uma palavra, não se viam ou qualquer outro contato.

[comem]
um deles busca assuntos aleatórios, frugais e leves. O outro se mantém calado numa quase indisfarçável tensão que os deixa ambos desconfortáveis. Uma bomba que pode a qualquer momento explodir.

[a garçonete deixa uma bandeja com dois expressos na mesa]

Pode ser que realmente eu insista em ter problema, sabe? Mas daí a achar que eu gosto disso existe uma distância. De fato é uma coisa a ser tratada, uma espécie de doença mesmo, eu acho. O que posso fazer é tentar controlar e sei que tenho passado da conta.

[o outro olha insatisfeito com o diálogo, num ar de reprovação e desgosto pelo assunto]
Concordo com você e tudo que tenho para dizer é que não quero passar por isso. Se você pudesse ao menos me deixar fora desse questionamento. Tudo que quero é estar contigo sem essas reflexões intermináveis e apenas aproveitar esse sol, esse café e a tua presença. Parece que é pedir demais...

[bebem o café. silêncio novamente]
 
segunda-feira, maio 15, 2006
  Súmula 3.0
[fim da tarde num restaurante, supostamente um (un)happy-hour]

Ambos estavam atrasados para outros compromissos. Os diálogos corriam rápidos entre raciocínios diferentes. Um a dizer bobagens sem reflexão; o outro a dizer bobagens calculadas, herméticas. Um a constatar coisas acontecidas no momento, caídas como frutas maduras; o outro a dizer que tudo já havia sido dito há bastante tempo e com as mesmas palavras. Um a pedir mais uma bebida com as pernas agitadas embaixo da mesa; o outro a contar os segundos sem disfarçar a pressa em sumir-se dali. Um a tentar olhar fundo nos olhos, como se fosse possível buscar um fingimento qualquer, implorando por uma mentira que representaria naquele momento uma estúpida salvação; o outro a buscar os cantos do bar com as orelhas. Um a achar-se capaz de convencer com o olhar, trazer-lhe de novo de um desses recantos onde a alma por vezes se perde; o outro sufocar-se com argumentos.

[calam-se]

Mas você acha que pode ser diferente?
Não, não acho.

[mais silêncio. Breve.]

Um se levanta e tenta se despedir. O outro vira o rosto e, depois da saída, acompanha a imagem perdida pela rua com passos apressados.
 
  Itinerários

"o que não serve para amor-táctil, tem que servir pelo menos para escrever"

Quem controla o vento que vêm rasgando as ruas? Em tudo, um cheiro indecifrável deixa nos nossos narizes uma confusão imensa. Cheiramos um ao outro à procura de respostas, tal como dois cães que numa tarde de sol se identificam.

Eu me estranho ao som dos teus dentes desgastados das mesmas palavras, e, na aventura das novas coisas, se esgotam observações confusas sobre mim. E eu que sou tanto o mesmo ultimamente tenho dúvidas sobre que tempo é esse. Confusamente atemporal.

Vamos, meu bem, vamos dançar só mais essa? De rosto colado. Quentinho! Uma balada de Stan Getz e Dave Brubeck não é pouca coisa para nós que temos o inverno pela frente. As baladas deviam ser proibidas ou penduradas na estante para que o mundo fosse mais simples para uma pessoa como eu. Mas insisto nelas. É hora de pegar o trem, mas a estação está tão longe e esse vento gelado dá uma preguiça.

Além disso, eu continuo sentindo esse cheiro e perguntando: que é? Você já foi embora há tempos, apressada, pois seu tempo é outrora. E o meu futuro imediato é passar os dias te esquecendo nesta estação.
 
terça-feira, maio 09, 2006
  Trilogia do Adeus (2)
o corpo foi, mas a alma ainda insiste!

Que são essas vozes que escuto no corredor? As luzes estão apagadas para nós, meu bem. Nos restaram diálogos inacabados, as plantas no corredor, os santos esquecidos, as lembranças anotadas em lugares secretos, as viagens que não nos levaram para os lugares que não conhecemos. Também uns beijos enganados, dois abraços irreconhecíveis, mais notas secretas, cobertores para o frio, meias de lã. Deito no chão deste quarto inteiro e respiro profundamente, my funny valentine. Não ouça Chet Baker, por favor.

Não liga não, meu bem. Esse é o tempo das insônias, das minhas insônias ambulantes. Sou um inseto catatônico te procurando nas lâmpadas fluorescentes dos bares. Eu aprendi isso no meu dicionário. Fui letra por letra, palavra por palavra, de forma quase obscena circulando entre os ás, bês, cês e dês... até descobrir que essa foi feita sobre medida para esse tempo. Agora: ser e estar.

Depois do tempo do que era amor, meu amor, preciso de outro para desabrochar o desamor. Fui eu quem ficou com as pétalas no bolso, lembra? Envelopadas. E é delas que estudo: (des)lição, (des)fruição, (des)integração...

O cinza inunda o céu e as janelas azuis da vila estão todas fechadas. Todos assustados pensando no futuro. Nunca tive medo disso. O fim é banal. É a parte do sonho que acaba antes do gozo. A luz do cinema acendeu, meu amor. Meus olhos estão vermelhos...
 
sexta-feira, maio 05, 2006
  Súmula 2.0
Há duas semanas em viagem, ele liga. De onde estava ainda havia resquícios do dia, das seis horas a mais no fuso horário. Do outro lado, ela atravessava uma noite quente, dessas que fomentavam seu sono pesado, cortada por pesadelos cotidianos. O telefone atravessou o silêncio escuro do quarto e acordou-a assustada e ofegante.

-Alô... disse ela com sua voz rouca.
-Sou eu....


Atualizaram-se das coisas do outro e impressões sobre a cidade, as pessoas e as atividades em questão que o levaram a viajar. Uma conversa típica de DDD. Ele ativo, falante, e, ao mesmo tempo, com uma leve dose sentimentalóide na voz. Ela, zonza, sem notar que parecia mais preocupada com o sono rompido de forma brusca - talvez comprometido pelo resto da noite - do que propriamente com o diálogo em andamento.

-Essa semana eu não me senti muito bem. São muitas informações e coisas para serem feitas, além disso, não conheço o lugar e não tenho vontade de fazer turismo.
-E devo achar que você está mal?
-Só se você quiser. Ou melhor, não ache nada, não. Não perca seu tempo com isso.


Encerraram com desejos recíprocos de melhoras e um melancólico beijo no final. Ele desligou e bebeu uma dose. Ela acendeu a televisão e viu um filme idiota.
 

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