Súmula 3.0
[fim da tarde num restaurante, supostamente um (un)happy-hour]Ambos estavam atrasados para outros compromissos. Os diálogos corriam rápidos entre raciocínios diferentes. Um a dizer bobagens sem reflexão; o outro a dizer bobagens calculadas, herméticas. Um a constatar coisas acontecidas no momento, caídas como frutas maduras; o outro a dizer que tudo já havia sido dito há bastante tempo e com as mesmas palavras. Um a pedir mais uma bebida com as pernas agitadas embaixo da mesa; o outro a contar os segundos sem disfarçar a pressa em sumir-se dali. Um a tentar olhar fundo nos olhos, como se fosse possível buscar um fingimento qualquer, implorando por uma mentira que representaria naquele momento uma estúpida salvação; o outro a buscar os cantos do bar com as orelhas. Um a achar-se capaz de convencer com o olhar, trazer-lhe de novo de um desses recantos onde a alma por vezes se perde; o outro sufocar-se com argumentos.
[calam-se]Mas você acha que pode ser diferente?
Não, não acho.
[mais silêncio. Breve.]Um se levanta e tenta se despedir. O outro vira o rosto e, depois da saída, acompanha a imagem perdida pela rua com passos apressados.