ninharias, fetiches e lembranças

Vou seguindo o tempo em que te chamava: vem cá,
nega! Senta no colo do teu homem, senta! E te puxava pelas ancas e beijava teu pescoço e me enroscava na tua cintura. E tu gemendo,
nega, soltando uns gritinhos, uns gemidinhos que aumentavam e, me aumentando, eu sobrevoava o teu corpo com uma fome, uma fome metafísica, uma fome egocêntrica, uma fome anímica.
Lembro da primeira vez que nos vimos, do primeiro gesto. E gostei de tudo num estalo. É verdade que me apaixonei pelos teus peitos, minha
musa. Juro que sim. Eu sei que é uma coisa estúpida de se dizer, uma coisa realmente estúpida, afinal sempre admiti minha predileção pela nobreza nestas áreas tão sentimentais. Mas é que não consegui desviar meus olhos dos teus peitos e sonhei com eles nos primeiros dias, nos segundos dias e nos últimos dias. Seios consistentes, volumosos, onde eu me divertia com inestimável conforto. Ressurgia em mim um prazer filial, erótico, freudiano, uma teoria psicanalítica inteira para justificar o fato de eu ficar horas sorvendo o teu líquido invisível. Você gozava nessa orgia psíquica, minha
deusa, o prazer desta sucção quase maternal, um prazer tão etéreo que te fazia contorcer-se na cama e pedir maaaaaaaaaaaais.
No antegozo desta paixão atípica renasceram nossas bocas, os olhares, as palavras. As malditas palavras encrostadas na carne. Palavras que tatuavam em nossos corpos significados e cicatrizes (raramente apagadas com corretivo).
Coração, eu lembro das palavras, de quase todas. E as atitudes vãs, os rasgos nas nossas costas, pedaços da minha pele nas tuas unhas negras.
Mas, sinceramente, prefiro amarrar minhas memórias no cheiro do sabonete de glicerina impregnado nas tuas virilhas, nas pintas espalhadas geograficamente pelo teu corpo - e de como eu gostava de contabiliza-las uma a uma. Engolir teus gozos, sentir os pelinhos do teu rabo roçando no meu nariz, chupar teu dedão e te fazer rir. (Você sabe qual é o gosto da Minâncora?)
Sim, tudo que me restou é este império de ninharias, fetiches e lembranças que, enfim, constituíram um dia o antro onde eu encontrei repouso para minha cabeça cheia de não-me-toques.