QuartoInteiro
Meus fragmentos de um discurso amoroso...
Estava ali, abri a página de um livro e estava ali. Saravá!!!!!!
E no entanto ali estava
A poucos passos sua forma feminina
Que não era nenhuma outra forma feminina
Mas, a dela
A mulher amada
Aquela que ele abençoara com seus beijos
E agasalhara nos instantes do amor de seus corpos
Tento imaginar em sua dolorosa nudez
Já envolta em seu espaço próprio
Perdida em suas cogitações próprias
Um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas
De súbito sentindo que ia explodir em lágrimas
Correu para a rua e pôs a andar sem saber para onde?
(Trecho do Soneto de Separação, Vinícius de Moraes)
Súmula 1.1
[um leve chuvisco na avenida]
ambos caminham rápido, desviando nas marquises e, para facilitar o acesso, andam em fila. O barulho das pessoas e do trânsito gera uma espécie de torpor. Todos desviam dos guardas-chuva, dos capotes de plástico, dos cotovelos apressados e das sacolas dos supermercados.
[param na sinaleira]
Tem horas que eu acho que estamos perdendo tempo juntos. [se olham]
Desde quando tu achas isso?[o sinal abre e a chuva aperta]
[seguem]
Súmula 1.0
Diálogo entre casais na fila do caixa em supermercado.[passando os produtos do carrinho para a esteira]
depois do silêncio, enquanto maquinalmente os produtos são registrados, um deles interrompe o ato:
Mas, afinal, do que você tem tanto medo?[silêncio breve rompido por uma tensão leve e irônica na resposta]
Não sei exatamente. Se eu soubesse, não passa pela tua cabeça que já teria buscado uma solução?[a operadora do caixa informa o valor]
[saem]
A trilogia do Adeus - (parte 1)
"Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa seqüência de ações sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola. A. Camus, em O mito de Sísifo."Juntou as roupas rapidamente na mala e saiu. Ela correu por vários lugares, perdida, desmotivada, inútil. A semana foi de discussões absurdas, palavras atiradas com aspereza, acusações estúpidas e culpas que se amontoavam pelos cômodos da casa. Uma repetição dos últimos anos, intercalada por rompantes e tentativas para driblar as crises que surgiam por todos os lados.
Sentia diante de si uma culpa inominável, uma febre estranha diante da qual não sabia como se salvar sem uma atitude extrema. Em tudo aquilo ainda havia o sofrimento dele, os olhos tristes e furiosos, repletos de medo de seguir em frente. Não tinha mais como negar seu desejo por novos dias e a necessidade de sentir de um frescor cotidiano, como se precisasse reinventar uma nova primavera para sua vida. Mas também não podia culpá-lo pela dor, não podia culpá-lo pela mágoa. No máximo, sentir-se assim: com os olhos duros e a alma - ainda que negasse para si mesma - mais leve.
Caminhou com sua mala por horas e sentou-se numa praça. O sol estava generoso, ela perdida. Mas em seu coração os sentimentos estavam tão bem estabelecidos que, subitamente, deu-se conta que não lhe cabia mais nenhuma dor. Talvez diante dele, que agora era uma espécie de passado em movimento, ainda presenciasse um desconforto emocional. Só isso. Mais do que nunca estava preparada para buscar uma felicidade onde não havia mais lugar para ele.
Foi por isso voltou para casa. Encontrou-o praticamente igual: pesado. A tarde terminava ao longe, num dia frio e ensolarado. Os laranjas e púrpuras se sobrepunham e a noite negra se anunciava para logo. Das janelas das casas, as pessoas se preparavam para o fim daquele domingo quieto. Ele permanecia de meias e casaco, cabelos desgrenhados e os olhos vermelhos. Imóvel na sua poltrona.
Olhou-o com a firmeza de seus sentimentos e com a generosidade e respeito necessário para fazer com que outro simplesmente aceite os desígnios da vida.
Não, eu não te odeio. Não mesmo. Apenas não consigo mais.
Ele não falou nada. Tremia. Abraçou-a forte, intensamente. Suas lágrimas molharam a blusa dela. Depois, calçou os sapatos, vestiu o sobretudo e se foi.
O sol enganador (*)

Tem gente que se intromete na nossa vida com uma propriedade interessante. Um velho, vizinho de andar e amigo (nessa ordem) deixou esse bilhete numa folha ofício devidamente colocada por debaixo da minha porta. Não entendi muito bem se era para mim ou se havia escrito para ele mesmo. Que seja.
Não se engane com o sol lá fora, meu amigo. Definitivamente. Ele há de tombar todos os dias; há de cobrir-se com nuvens; há de cruzar uma tal camada qualquer que atravessará nossa pele como manteiga: cavocando-a, cauterizando-a, craterizando-a. Não se engane, não se engane com as aparências. É melhor assumi-las. As aparências cabem agora. Não há futuro escrito em sábias escrituras ancestrais e bobagens desse tipo só farão você engordar, ficar chato e cansado. O sol que está lá fora é único, instale-se comodamente aqui neste agora. Sente aí do lado e vamos aprecia-lo. Para facilitar, deixe suas ideologias para quando estiver chovendo. Pegue essas filosofias todas e guarde para um domingo cinza com chá quente e meias de lã, afinal é para isso que elas servem mesmo. Filosofias em excesso combinam com joelhos cansados e não é o seu caso.
Nada pra depois. Não tenho tempo para depois. Nem mesmo para os arrependimentos. * título de filme do diretor russo Nikita Mikhalkov
sobre e tudo

Correr pela rua, vadiar, arriscar levar um tapa na cara e dar um tropeço no chão. Depois andar, andar e andar. Quem se vê andando assim? Quem vê o outro nessa correria toda? Corro, corro, corro... e meus pés estão inchados de tanto correr. Seria menos idiota se me perguntasse: afinal, para onde vou? Não, não. Corro. Só corro. E a chance de algo me atingir, qual é? Estatísticas desse tipo povoam a minha cabeça de vez em quando, principalmente quando sento no vaso sem coisa melhor para pensar.
Segue ladeira abaixo a falta de intenção para com os dias. Meus pés estão doendo e alguém ainda se acha no direito de suspeitar do meu sucesso. Eu suspeito de tudo, respondo. Quase tudo. Sucesso é vadiar sem culpa. é contar estrelas e remendar histórias. é tudo aquilo que só você percebe. é o fracasso que você serve para os outros no jantar. E todo mundo te diz: isto está uma maravilha!
Sim, eu também tenho medo de ficar velho e lá pelo final dos dias ficar me perguntando numa praça de braços dados com alguma estranha: para que tudo isso? Desde pequeno enfiaram na minha cabeça oca que era para ficar perguntando os “porquês” de tudo. Um filósofo frustrado é sempre o pior educador. Agora quero acabar com as perguntas e ter tempo para catar as imagens que aparecem. O resto, por enquanto, que se dane.
Eu gosto dela quando ela é de verdade. Mas ela nem sempre é assim, ou melhor, ela quase nunca consegue ser assim. Ela está sempre presa em coisas inomináveis, como se um guarda-chuva escondesse o seu belo rosto pálido dos desígnios da luz. Eu vivo nela a fragilidade dos dias, o lado ambíguo da felicidade, os passeios nos campos confusos de nossas mentes acostumadas a simulação.
Somos a virtude de um labirinto, uma aventura pelo nosso leito, do nosso rio virtual que, ao bem da verdade, vai dar em lugar nenhum. Nós desgraçamos o cotidiano juntos e, depois, colhemos com ingenuidade os frutos. Eu tenho nela a promessa. Ela tem em mim a incoerência.
Não me resta muito para falar. Não mesmo. Tenho nas mãos apenas as pedras que venho guardando ao longo do tempo e, pelo que percebo, o fruto não esta maduro o suficiente para sucumbir com um simples arremesso.
Então choro com a abundância de quem tem uma felicidade secreta.
A ponte
Quando as nuvens cercaram as estrelas e a luz da praça jazia mínima, como se pertencesse ao infinito, perguntei: Quem vem lá?Falaram ao telefone de uma forma rápida. O mesmo tom, as mesmas falas monótonas e o diálogo totalmente previsível. Era por volta de onze horas da manhã e o estômago já anunciava a fome. A pilha de trabalho sobre a mesa deixava-a tensa, dessas tensões que nunca passam, como as pilhas. Do outro lado o peso era o mesmo. Trabalhos, agonias e ausências. Ele pensou em ligar apenas para coisas breves, expectativas de dias melhores e uma idéia para o fim de semana.
Não acredito mais em você! Nem nessas coisas que você diz.
Não, você não acredita mais em você! Acabar com isso tudo é mais fácil do que você imagina. Simples mesmo, tão mais simples que faço questão de te mostrar.
Desligaram o telefone e ele não voltou mais para casa. Ela sentiu a ausência por alguns dias e, em seguida, um conforto estranho pelo corpo, um contentamento que a deixou encabulada. Sentia-se tão melhor que um sopro de medo cruzou a intimidade da sua noite solitária. E seus libidinosos sonhos noturnos - há tempos ausentes -retornaram.
Mas, não havia nesse medo espasmódico nada além de um sentimento maquinal, um resquício inevitável de uma sombra que, a qualquer momento, se apagará.
Solidão Ordinária
Meus pensamentos são regulares: cotidianos sobre as vitrines e fachadas, manchetes de jornais, bancos de praça, cafés. Diálogos de uma solidão tranqüila e bem orquestrada. O meu eu dialoga melhor assim: uma solidão ordinária. Aparentemente, controlo com mais facilidade o que se passa ao redor. E, de fato, me preocupo com o convívio de tal forma que, depois de algum tempo, raramente acho a inserção de uma outra alma nesta linearidade coisa cômoda ou agradável.
Na presença do outro me exponho às palavras, às vírgulas mal-colocadas, adjetivos escorregadios,notas ambivalentes. Na atitude do outro ecoam expectativas devidamente floreadas por uma dezena de intenções subjetivas e nem mesmo nós, os autores, sabemos traduzi-las.
Como correspondê-las? O autor dentro da história sabe ao certo as reais intenções do seu personagem?