O sol enganador (*)

Tem gente que se intromete na nossa vida com uma propriedade interessante. Um velho, vizinho de andar e amigo (nessa ordem) deixou esse bilhete numa folha ofício devidamente colocada por debaixo da minha porta. Não entendi muito bem se era para mim ou se havia escrito para ele mesmo. Que seja.
Não se engane com o sol lá fora, meu amigo. Definitivamente. Ele há de tombar todos os dias; há de cobrir-se com nuvens; há de cruzar uma tal camada qualquer que atravessará nossa pele como manteiga: cavocando-a, cauterizando-a, craterizando-a. Não se engane, não se engane com as aparências. É melhor assumi-las. As aparências cabem agora. Não há futuro escrito em sábias escrituras ancestrais e bobagens desse tipo só farão você engordar, ficar chato e cansado. O sol que está lá fora é único, instale-se comodamente aqui neste agora. Sente aí do lado e vamos aprecia-lo. Para facilitar, deixe suas ideologias para quando estiver chovendo. Pegue essas filosofias todas e guarde para um domingo cinza com chá quente e meias de lã, afinal é para isso que elas servem mesmo. Filosofias em excesso combinam com joelhos cansados e não é o seu caso.
Nada pra depois. Não tenho tempo para depois. Nem mesmo para os arrependimentos. * título de filme do diretor russo Nikita Mikhalkov