A ponte
Quando as nuvens cercaram as estrelas e a luz da praça jazia mínima, como se pertencesse ao infinito, perguntei: Quem vem lá?Falaram ao telefone de uma forma rápida. O mesmo tom, as mesmas falas monótonas e o diálogo totalmente previsível. Era por volta de onze horas da manhã e o estômago já anunciava a fome. A pilha de trabalho sobre a mesa deixava-a tensa, dessas tensões que nunca passam, como as pilhas. Do outro lado o peso era o mesmo. Trabalhos, agonias e ausências. Ele pensou em ligar apenas para coisas breves, expectativas de dias melhores e uma idéia para o fim de semana.
Não acredito mais em você! Nem nessas coisas que você diz.
Não, você não acredita mais em você! Acabar com isso tudo é mais fácil do que você imagina. Simples mesmo, tão mais simples que faço questão de te mostrar.
Desligaram o telefone e ele não voltou mais para casa. Ela sentiu a ausência por alguns dias e, em seguida, um conforto estranho pelo corpo, um contentamento que a deixou encabulada. Sentia-se tão melhor que um sopro de medo cruzou a intimidade da sua noite solitária. E seus libidinosos sonhos noturnos - há tempos ausentes -retornaram.
Mas, não havia nesse medo espasmódico nada além de um sentimento maquinal, um resquício inevitável de uma sombra que, a qualquer momento, se apagará.