QuartoInteiro
segunda-feira, outubro 31, 2005
  Como se lê uma surpresa?
Buenos Aires, 23 de outubro de 2005.



Caríssimo,


Há quanto tempo eu não lhe chamo assim? Talvez desde a nossa última correspondência, aquela que você implicava com meus gostos estranhos por determinados autores e pelas deliciosas linhas a respeito de tantas coisas que como você bem sabe, não só adoramos como passaríamos tardes e tardes apenas falando sobre elas. Mas o que me traz aqui, nessa ironia e falta até de coragem eu diria, contando que enquanto lhe escrevo você está a apenas algumas quadras daqui em busca de revistas e de cigarros, quando você estiver de volta, não estarei mais aqui. Nessa inversão de clichês, quem não volta mais sou eu. E não me orgulho (pode ter certeza disso) desse ato bobo e infantil. E antes mesmo que sua mente anteceda as causas, elabore frases prontas e as coloque todas em minha boca, lhe explico com calma e da forma mais direta que eu conheço todos os fatos. Portanto, ainda não tire conclusões precipitadas antes de debruçar os olhos até a última linha dessa carta.

Buenos Aires é linda como você tinha dito. E me lembra você a todo tempo. Nas falas, nos livros, no tango, no vinho, nas gentes elegantes pelas ruas, nas cores, nos cafés. E entendo um pouco melhor esses teus olhos a mirarem na diagonal cada detalhe, a me fazerem compreender o que de fato me trouxe até aqui. Ora, se tudo me faz lembrar você e das coisas que aprendi a gostar dessa tua maneira, com essa tua retina já vivida, em cada fio desse teu cabelo branco a dedilhar em mim canções que eu mesma não saberia explicar. Que esse teu gosto que já não é seu, mas nosso, me angustia o tempo todo. A me comer pelas beiradas do estômago em qualquer sinal de perda. Que esse teu corpo já ensinou ao meu como proceder de todas as formas e jeitos, dos teus jeitos me ajeito melhor. E eu gosto desse teu ouvido afinado mesmo que ainda haja prazerosas discussões: Baker para mim, Coltraine para você. A me explicar sobre cada parte dessa partitura desconexa, a desfiar incontáveis histórias que eu adoro ouvir, apesar dos meus gestos obscenos, os mesmos que te provocam tanto e que fazem com que você interrompa a fala e me tire para dançar assim colado, perto da janela, me embalando molinho até quase me fazer perder os sentidos. A tua boca é objeto à parte para me tirar do sério. Ela que é portadora dessa doença chamada literatura e que me deixa em altas febres no meio da madrugada. Para depois dizer sacanagens no meu ouvido que de erudito você passa ao chulo com total maestria. Dessa tua mão direita a cravar nas minhas coxas frases dos teus livros preferidos que ainda vão estar aqui, mesmo que se passem dez, vinte, trinta anos. Sobreviveremos até lá? Talvez, meu caro. Talvez.

E se eu me acovardo agora, entenda que esse teu conjunto tão perfeito de coisas me botam pra correr. Que eu não dou conta desse amor que gruda, que isso tudo que a gente inventou foi longe demais. Até onde a ficção é capaz de acobertar tanta realidade? Que dessa Buenos Aires construída, só eu e você vamos saber onde ela fica, em que rua-país-cidade ela habita. Isso eles todos não precisam saber. Que da cor da tua retina cuido eu. Do teu cheiro sei eu. E do teu paradeiro minha cama-tua-cama abrigam dois corpos cansados de tanta brincadeira literária, tanto arfar metafórico, tantas indagações vazias. Mal sabem elas dessas tuas invasões extensas e repentinas. Mal sabem eles que esse crime compensa. Que das tuas marcas cuido eu. E então me dá um puta medo que agora desse amor eu não saiba cuidar. Porque tenho receio de que você se canse de me ensinar mais isso, que eu não aprendi fora do papel como é que faz no dia-a-dia, como é que se enfrenta a rotina, como é que acorda junto para dar bom dia. E que das minhas pirações você acha graça, mas será que consegue mesmo suportar? Que nesse teu mundo é tudo tão direito, tudo tão centrado que acho que posso acabar botando coisas no lugar errado, manchando o teu branco chão, rasgando as tuas cortinas e apodrecendo tudo na tua geladeira. E antes que você me diga com palavras delicadas e tão bem construídas que você se cansou, que tentou, tentou, tentou, eu vou-me embora sem te dar chances de me convencer seja com esse teu otimismo vazio, seja com esse teu corpo cheio de marcas do tempo a me lembrar com esse peso todo sobre mim, o tempo todo, que eu esse meu corpo quer mesmo é você. Pra quem sabe depois eu me deitar com outro para te fazer ciúmes, roubar teus livros em queixumes as tuas ausências, ao teu cansaço, à essa tua futura velhice. Que eu te amo tanto que chegaria a ser cretina. Que chegaria a ser vadia. E por último, chego mesmo ao extremo de ser covarde. Não me procure, porque eu posso mudar de idéia. Com amor e com ela que a gente adora, Dona Fitzgerald (já no repeat) At Last dando o tom a uma partida quase cinematográfica. Deixa alto assim, que é para eu ouvir do avião.


Ass: (para todos os efeitos) Dona Estultícia.


P.S: Já que começamos com isso tudo mesmo, te autorizo a publicar essa carta no teu quarto, caso queira.


ainda sem saber onde... Dona Estultícia.
 
terça-feira, outubro 25, 2005
  Delírios de um rodapé notívago
Por que, com teus encantamentos infernais, arrancaste-me à tranqüilidade da minha primeira vida... O sol e lua brilhavam para mim sem artifício; acordava entre aprazíveis pensamentos e, ao amanhecer, dobrava as folhas para rezar minhas orações. Não via nada de mau, pois não tinha olhos; não escutava nada de mau, pois não tinha ouvidos; mas hei de me vingar!
*Discurso da mandrágora, em Isabel do Egito, de Achim Von Arnim
** O jogo da Amarelinha, Cortázar


Será que você dormiu? Movimento meu corpo, lentamente, calculando os espaços de maneira que você se acomode na cama suavemente na minha ausência. Nas duas últimas duas horas de silêncio, observo tua respiração e passo o tempo pensando que leio os teus sonhos. Bate um resto de luz pela janela e, ao invés do escuro, estamos envoltos na bruma vermelha vinda do luminoso de néon que insiste anunciar nosso paradeiro: Florescente Hotel. Caso contrário, eu mesmo desconfiaria se estamos realmente aqui deitados, exaustos, apreensivos.

Teus olhos fechados e as mãos delicadas próximas à boca te dão ares de criança. Os lábios vermelhos e inchados de beijos, mordidas e adjetivos estão ainda mais bonitos. As palavras arras trocadas com o calor infernal do sexo, agora são substituídas por uma ternura inominável. (Tudo nesse momento é inominável). O lençol que não cobre as tuas meias brancas é inominável. Teu cabelo preto e macio é inominável. Você se mexe um pouco. Suspira. Inominável. Ouço som de um tango vindo de uma casa próxima daqui. Imóvel, tento ouvi-lo melhor.

A mobília desse quarto é simples. Sento numa cadeira dura e são nesses móveis antigos, de aspecto escolar e decoração duvidosa, onde relaxo pela primeira vez desde que cheguei aqui. Como é ser você? E quero te dizer coisas tão contraditórias que só o meu cigarro consegue compreender. Apreensivo demais para te falar que a situação está me exigindo além do que imaginava. Espaços que, antes, pensava fechados e agora estão reabertos. Eu não sei quem você é. Eu não sei quem eu sou. E se soubéssemos não estaríamos aqui. A fumaça do cigarro dá um aspecto bonito quando atravessa a luz vermelha que inunda o quarto.

Queria ir embora daqui, mas meus pés estão pregados ao chão. Essa nova rota aberta na minha frente me trará desconforto longitudinal. Eu sei disso... juro que sei. Mas, será que podemos ficar distantes um do outro? Será que eu consigo viver num mundo distante sabendo da tua presença nesta cama? Sou um tolo imaturo com pensamentos que não combinam com esses fios de cabelo branco. Amanhã, tomaremos nosso café na padaria aqui perto. Em seguida, de mãos dadas, andaremos pelos jardins que existem no caminho. Direi que acho lindo esse vestido rosa-chá e seu rosto ficará levemente corado. O tango persiste, monótono.

Hesito em sair correndo por essa porta. Sinto sono.

(Ainda estamos aqui...)

Dona Estultícia anda aqui do lado.
* Foto:Nan Goldin
 
sexta-feira, outubro 21, 2005
  Primeiro Dia



Uma Buenos Aires sob os olhos tensos, investigativos, estrangeiros. Onde se a maior parte do trajeto foi pelos ares, a parte mais tortuosa dele vem exatamente da rua de Palermo. Em solo firme. De concreto. A procurar por entre as mesas alguém que lhe seja peculiar à lembrança, alguém que ela veio encontrar (ou banir de vez) em meio a tangos e vinhos. Em língua quente. De fantasmas ela nunca teve medo. Só de gentes vivas, muito vivas. Agora a mirar um certo senhor muito elegante entretido com um bloco de notas, uma xícara de café a esfriar sobre a mesa com ares argentinos e um cigarro entre os dedos.

“Quantos cigarros teus pulmões foram capazes de suportar até eu chegar?”

“Faz tempo que a gente se falou pela ultima vez... Tempo que eu estou sentado nessa mesa... Tempo... Vivo do tempo e dessas companhias que estás vendo agora, nesse exato momento.”

Ainda em pé a gargalhar. “O que sabe você sobre o tempo?”

“Que ele passa mais rápido para mim...”, sorri olhando para os cabelos brancos.

“Você não tem idéia do que é o tempo naquele lugar. E agora me vem com esse discurso, sempre o mesmo discurso...”

“O mesmo?”

“Quase sempre...”

“E talvez tenha sido exatamente por isso que você esteja aqui, não?”

“Talvez... Melhor aqui do que naquela porcaria de clínica...”

“Depende...”

“Sempre depende...”

“Eu conheço gente que fica bem melhor lá”.

“Quem sabe nós dois ficaríamos...”

“Prefiro estes tipos de cadeiras...”

“Vais me convidar para sentar?”

“Sim, porque você não pede um café?”

“Ora, eu vim aqui pra tomar vinho, esqueceu?”

“Eu, geralmente, não bebo vinho essa hora”

“Nem por mim?”

“Nem por mim... Ah, finalmente um sorriso! Você fica quase indecente quando sorri”.

“Por que é que você queria tanto me ver?”

“E você já se perguntou por que é que quis vir?”

“Não foi essa a pergunta que te fiz”

“[...] e isso importa?”

“Não mais...”

“Eu tinha planejado te dizer tanta coisa, te escrever tanta coisa...”


“Então não diz nada...Ou diz, o que aparece aí na sua cabeça...”

“Uma porção de coisas tão abstratas que você repudiaria todas! E tantas perguntas, tantas...que chega a me dar tonturas. E ainda aquelas cartas...”

“Olha, isso não é um jogo com termos, resultado, tempo, regras...”.

“E é o quê então???”

“Estamos aqui pra ver. Posso te dizer uma coisa assim no ouvido, posso?”.

“Aqui? Agora?”.

“Sim. Não consigo resistir ao teu pescoço... Acho que é por isso que eu queria você aqui. Exatamente aqui”.

“Pode pegar então pra você”, curva o pescoço e oferecendo-lhe sobre a mesa.

“Mas espera... Você estava com tantas pendências comigo... E vai me dando assim? Sem dificultar? Ora, você adora isso...”.

“É só um pescoço... Ele de nada me serve agora”.

“Então ótimo, eu fico com ele”, passando as mãos gentilmente pela nuca dela.

“Quem sabe você não faz dele uma droga de chaveiro, ou bota como troféu naquele seu quarto... E não faz isso”, tirando a mão dele da nuca.

“Uma vantagem na minha vida é não precisar mais de troféu”.

“Não? E eu fui o quê então?”.

“Você é algo que ainda estamos produzindo”.

“Ora... Melhor você decidir se me quer escritora, se me quer numa porra de uma clínica, ou puta cativa...”.

“Quero tudo isso. É te exigir demais? Ou você acha que eu ia me conformar com pouco, com essas suas pré-definições?”.

“Você me quer esquiziofrência...Todos no fundo querem... Ando cansada de tudo isso...”

“Tem muito barulho aqui...”.

“Então vamos sair?”.

“Para onde você quer ir?”.

“Pra cama”.


Por ora, este quarto está impregnado de Dona Estultícia por todas as frestras e poros...
 
segunda-feira, outubro 17, 2005
  Espera

Aguardo tua chegada ansioso e com certa prudência. Entre um café e um cigarro folheio as páginas do Clarín e o idioma daqui recai sobre as minhas lembranças. Tempos passados: a vida nem parece minha quando visito as memórias. São boas imagens e fico cheio de um sentimento inexplicavelmente ensolarado. Ao contrário de flertarmos com a loucura na clínica do dr. Cohen, achei melhor deslizarmos por entre as ruas de Buenos Aires. Entre tangos e tintos. Enviei as passagens para o endereço que havias anotado em um papel qualquer, cujo verso trazia anúncios de uma agência de turismo. Destinos. Confesso que foi daí que me veio esta idéia. Não quis te consultar e não tenho certeza da tua chegada. Entre o meu desejo e as coisas da tua vida existem tantos espaços vazios. Não tenho certeza de nada (não quero realmente ter).

Posso apenas esperar nesse café, na fina mesa com toalhas brancas à minha frente, bem posicionado em uma rua de Palermo . O dia está frio e o sol acomoda os ombros. As pessoas caminham apressadas para seus compromissos e grupos de homens vestidos em ternos alinhados trocam idéias sob o sol. Fico pensando nessas coisas e me vêm à mente o fato que nos falamos apenas uma vez. Tudo instantâneo e certeiro. Depois incessantes e-mails (e já não escrevemos mais cartas e a caligrafia é substituída por fontes de computador).

O quarto que nos reservei na pousada é bonito. É um lugar especial cujos donos são uns amigos surgidos há alguns anos. Preocupa o fato de me sentir assim tão íntimo e te expor um mundo que guardei durante anos em sigilo (como quem plajena uma fuga). Naqueles tempos, eu vinha para cá era freqüentemente. Não sei se fiz bem comprar as passagens sem saber dos teus compromissos. Por ora, me sinto inocente em achar que umas poucas noites circulando pelas ruas e histórias do velho bairro de San Telmo (meu preferido!) estabelecem novas portas na vida de qualquer pessoa.

Estou anotando essas histórias no meu bloco e não sei se algum dia mostrarei estas linhas para você. Oscilo pensar se é verdade o que está acontecendo ou se tudo é mera literatura, fruto das nossas mentes entupidas por romances. O que eu sei é que estou te esperando e o relógio espeta agulhas no meu estômago. Espera....

sentado no café aguardando Dona Estultícia.
 
quinta-feira, outubro 13, 2005
 

Muitas vezes se tem demonstrado que é tão rígida a sua fixação à vida habitual, mas de há muito perdida, que acaba por não se verificar a aplicação efetivamente humana do intelecto, a previdência, até mesmo ante o perigo iminente. Assim a imagem da estupidez completa-se nela: insegurança, ou mesmo perversão dos instintos vitais, e desfalecimento ou até decadência do intelecto.Walter Benjamin, em 'Rua de Sentido Único'

E se eu abrir a porta para a loucura entrar? E se formos até a clinica do doutor Cohen (médico da família)? Com seus enormes olhos castanhos entediados, perdidos em vitrines de uma rua em plena sexta-feira à tarde, ele nos atenderia em horários diferentes no consultório chique dos Jardins. O divã é confortável, aveludado, o ar em perfeito equilíbrio. Nem frio. Nem quente. O doutor é monossilábico, lacaniano. Ele sabe que falamos demais para ouvi-lo. Sabe que estamos ali apenas para tirar férias de alguma coisa mal-compreendida e esse mal é incurável.

Tenho certeza que ele nos receitará uma semana em sua clínica no interior. Eu conheço bem o doutor Cohen. Sua clínica é o SPA dos artistas neuróticos, dos enfarados de mal nenhum, dos endinheirados de agenda lotada, dos insandecidos por excesso de livros, filmes, idéias. Doutor Cohen com seu jaleco branco de letras bordadas em azul no bolso é esperto. Dá na medida exata o que seus clientes pedem. Anota coisinhas com as mãos gordinhas e assépticas no bloco com capa de couro. Unhas bem cuidadas e um belo relógio Rolex contando o tempo pelos segundos.

Em silêncio ele pensa: “são outros idiotas a criar problemas para suas cabeças ocas. Quisera ter a metade dessa disposição deles, mas eu só trato dessa gente. Sou um proctologista fazendo exame de toque no desconforto existencial. Fuço com meus dedinhos cuidadosos nas suas intimidades. Não, não tem nada aí, mas vamos checar melhor, vamos analisar melhor, vamos apalpar melhor. Não, não vai doer não”, eu sei que é isso que ele anota enquanto expõe coisas em termos clínicos com o propósito de me dar algum tipo de justificativa ao que lhe exponho. Mas não tenho pretensão que ele nos entenda, nem mesmo fazer valer ao valor dessa consulta.

É bonita a sede da clínica do doutor Cohen. Pelo menos é agradável nas fotos do folheto que ele entrega quando a consulta termina. Tem bosque, jardins etc. É cara também, mas isso não importa. Mas, se você quer brincar mesmo, só vale se for diversão tarja-preta (na área dos isolados). Lá, gritos são arrotos cotidianos e as palavras têm outro sentido. Dor de cabeça se cura com Vallium e para o café da manhã você veste camisa de força. Qual o seu tamanho mesmo? Aí, quem sabe, a gente durma junto por três dias amarrados por enormes fivelas que nos manterão presos à cama?

Quando podemos nos encontrar? Dona Estultícia.
 
sexta-feira, outubro 07, 2005
 


Acho que as minhas palavras ecoaram de forma estranha em mim. E, quando penso nessa medida, sinto o meu tédio com as letras crescer intolerante. Não tenho sedução na pictografia e nos grafismos de letras cursivas bem formadas, do elegante “ô” e do regular “tê”. Cansam os círculos metafóricos onde penetramos imagens abstratas na cabeça do outro (o leitor) e nem tenho prazer no balanço das rimas: semântica; sintática. Se há onde buscar uma referência para essa estranha síndrome e, como é da tradição, busca-se na raiz de onde aprendemos ser a verdadeira culpa, cito a minha avó materna, uma jovem pianista clássica que, vinda para o Brasil em fuga na década de 30, perdeu três dedos da mão esquerda em um acidente e dedicou-se, então, à escrever poesia nas horas vagas. Quando furiosa repetia sempre que era passatempo de preguiçosos frustrados. Dizia que nunca ia querer filho ou neto artista. Nunca. E, com a mesma impaciência que dispunha para ler versos de outros, sua caneta seguia em alexandrinos guardados secretamente de todos. Após sua morte e, dos espólios devidamente confiscados e corrompidos, sobrou para minha mãe o velho baú, pesado e maciço, onde atrevi a destruir o cadeado e profanar seus poemas proibidos. Realmente achei-os enfadonhos e banais. De lá pra cá não consigo disfarçar esse contragosto com o valor das palavras.

Devo dizer-te, então, que há várias maneiras de ler aquilo que não foi escrito. Deixo para você, cuja habilidade notável com as palavras é superior em muito a minha, a tarefa de vasculhar meu texto intimamente, revirar-lhe as costas e descontaminar nossos olhares tão viciados. E, do inferno que se vive das palavras desajeitadas, retire algo de doce para os teus sentidos. Sei que é uma tarefa estranha, monótona, mas você é a única que posso confiar esse desejo.

Confesso que tenho atitudes estranhas o tempo todo, reflexos formais que eu mesmo escorrego do controle. É como o hábito de levar ao cigarro à boca e senti-lo entre os lábios, o calor aconchegante da fumaça invadindo o corpo. É estranho, pois há mais de 15 anos que parei de fumar, ainda hoje me vejo com os beiços em movimento e o corpo simulando angústias. Minha cabeça mais leve e a mão flutuando escreve impressões em idioma informal semelhante a uma canção. Sinto esse formigar na ponta dos dedos e, sob a ausência de certos hábitos, fujo para as letras como minha avó. De algum modo, da sua loucura eu retiro uma necessidade de deitar no chão reconfortante de um parque em dia de sol. Uma angústia brutal em te mostrar que a vida não é tão metafórica, não é tão texto assim. O futuro é totalmente previsível, mas este agora indecifrável nos justifica aqui. É dele que vivo, desta fumaça que se espalha no ar e foge livre para todos os espaços. Exatamente isso que quero compartilhar contigo, numa ausência de nomes e adjetivos para as coisas que se passam neste tempo breve. Danem-se estas ilusões onde supostamente depositamos o óbvio amanhã.
Danem-se as impressões. Danem-se as recordações do futuro.

com o peso e a leveza das palavras: Dona Estultícia.
** ilustração de Akino Kondoh
 
quarta-feira, outubro 05, 2005
 
Meu prazer é meu. Tuas ilusões, tuas. Cada um de nós que sustente o peso da própria cabeça com as virtudes e vícios. O dia que isso não acontecer, eu caio fora. Sem avisos, sem detalhes, obrigações ou flores. Não tenho a menor intenção de morrer com méritos. Nada espero de você que já não tenha recebido intensamente nas horas que passamos juntos. Garanto que esperar faz mal e nos envelhece antes do tempo.
Estou sentado no café escutando um jazz ordinário, ambiente, nada elaborado como aquele que ouvimos outro dia, trata-se de uma melodia banal, repetitiva, regular. Ainda assim me divirto sem motivo relevante. Aqui, anoto coisas que nunca serão publicadas por achar que se tratam de reflexões inúteis. Escrevo também essas notas para você. Penso que as reflexões inúteis são a coisa mais egoísta que podemos produzir. Uma luz fosca da rua ilumina o café e, numa mesa lateral, uma mulher entre 45 e 50 anos veste um belo casaco bege. Mesmo sem conhecer o assunto, acho que está fora de moda (possivelmente tenha sido chique há décadas atrás). Ela tem belas unhas vermelhas e o rosto coberto de rouge. Nos olhamos com uma cumplicidade tímida. Uma beleza entediada, algo inominável que lhe confere sensualidade. Penso no seu corpo nu, na timidez estranha das rugas e dobras do corpo delgado. Depois, vejo-a deitada ao meu lado, exausta do pouco sexo, cobrindo o seio nu e fumando um cigarro. Inutilmente, ela tenta me contar sobre sua vida, mas eu impeço dizendo que meu tempo acabou. Com movimento rápido, a mulher retoca o batom vermelho e veste o casaco bege. A temperatura lá fora caiu consideravelmente. Não nos dizemos quase nada quando saímos do hotel, no mesmo quarto que fiquei com você uma vez. Digo-lhe adeus sem olhar-lhe nos olhos. Sei que ela me disse seu nome e fico andando pelas ruas tentando lembrar. Mas não consigo e vago pensando em nomes femininos que resgatariam a lembrança da palavra em seus lábios. Nada. Vago com essa anônima entre os meus dentes e essa ausência na memória me faz esperar algo acontecer. O que? Nem eu mesmo sei.

Sim, posso achar melhor ou mais conveniente estar com outra pessoa e, se acontecer, será por julgar que estarei melhor naquela situação. Não existe pacto e as peças são jogadas assim nesse tabuleiro. Aliás, nem existe tabuleiro, baby. E, expostas, as peças vagam sem próximo movimento definido. Certamente tenho estratégia, mas nunca vou te revelar.

Não existe em mim um outro enigmático, um ser diferente do que eu te apresento. Todo dia eu atravesso a mesma rua, penso as mesmas coisas. E, a cada momento, não espero a coerência de antes. Não tenho entrelinhas disponíveis no momento e dou o espaço que me convém neste guarda-chuva. Acredite nisso com força. Quando achares tudo uma grande injustiça, não escreva recados para colar na minha geladeira. Não mande cartas falando da sua tristeza ou sobre o modo que eu trato você. Isso não me sensibilizará e, antes, irá me cansar a paciência fazendo com que eu ache chato estar com você. Portanto, livre-se dos seus parasitas antes que eles acabem com seu brilho e consumam sua existência.

Se num dia triste você quiser encontrar comigo deixe absolutamente claro seu desejo. Se for possível, estarei lá. Caso contrário, esqueça. Chame outra pessoa, ou dê uma solução. Mas, nem pense de tentar recuperar essa mágoa fruto da minha ausência. Tens comigo a liberdade que quero para nós.

Com a liberdade disponível, lembro de Dona Estultícia.
 

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