QuartoInteiro
quarta-feira, outubro 05, 2005
 
Meu prazer é meu. Tuas ilusões, tuas. Cada um de nós que sustente o peso da própria cabeça com as virtudes e vícios. O dia que isso não acontecer, eu caio fora. Sem avisos, sem detalhes, obrigações ou flores. Não tenho a menor intenção de morrer com méritos. Nada espero de você que já não tenha recebido intensamente nas horas que passamos juntos. Garanto que esperar faz mal e nos envelhece antes do tempo.
Estou sentado no café escutando um jazz ordinário, ambiente, nada elaborado como aquele que ouvimos outro dia, trata-se de uma melodia banal, repetitiva, regular. Ainda assim me divirto sem motivo relevante. Aqui, anoto coisas que nunca serão publicadas por achar que se tratam de reflexões inúteis. Escrevo também essas notas para você. Penso que as reflexões inúteis são a coisa mais egoísta que podemos produzir. Uma luz fosca da rua ilumina o café e, numa mesa lateral, uma mulher entre 45 e 50 anos veste um belo casaco bege. Mesmo sem conhecer o assunto, acho que está fora de moda (possivelmente tenha sido chique há décadas atrás). Ela tem belas unhas vermelhas e o rosto coberto de rouge. Nos olhamos com uma cumplicidade tímida. Uma beleza entediada, algo inominável que lhe confere sensualidade. Penso no seu corpo nu, na timidez estranha das rugas e dobras do corpo delgado. Depois, vejo-a deitada ao meu lado, exausta do pouco sexo, cobrindo o seio nu e fumando um cigarro. Inutilmente, ela tenta me contar sobre sua vida, mas eu impeço dizendo que meu tempo acabou. Com movimento rápido, a mulher retoca o batom vermelho e veste o casaco bege. A temperatura lá fora caiu consideravelmente. Não nos dizemos quase nada quando saímos do hotel, no mesmo quarto que fiquei com você uma vez. Digo-lhe adeus sem olhar-lhe nos olhos. Sei que ela me disse seu nome e fico andando pelas ruas tentando lembrar. Mas não consigo e vago pensando em nomes femininos que resgatariam a lembrança da palavra em seus lábios. Nada. Vago com essa anônima entre os meus dentes e essa ausência na memória me faz esperar algo acontecer. O que? Nem eu mesmo sei.

Sim, posso achar melhor ou mais conveniente estar com outra pessoa e, se acontecer, será por julgar que estarei melhor naquela situação. Não existe pacto e as peças são jogadas assim nesse tabuleiro. Aliás, nem existe tabuleiro, baby. E, expostas, as peças vagam sem próximo movimento definido. Certamente tenho estratégia, mas nunca vou te revelar.

Não existe em mim um outro enigmático, um ser diferente do que eu te apresento. Todo dia eu atravesso a mesma rua, penso as mesmas coisas. E, a cada momento, não espero a coerência de antes. Não tenho entrelinhas disponíveis no momento e dou o espaço que me convém neste guarda-chuva. Acredite nisso com força. Quando achares tudo uma grande injustiça, não escreva recados para colar na minha geladeira. Não mande cartas falando da sua tristeza ou sobre o modo que eu trato você. Isso não me sensibilizará e, antes, irá me cansar a paciência fazendo com que eu ache chato estar com você. Portanto, livre-se dos seus parasitas antes que eles acabem com seu brilho e consumam sua existência.

Se num dia triste você quiser encontrar comigo deixe absolutamente claro seu desejo. Se for possível, estarei lá. Caso contrário, esqueça. Chame outra pessoa, ou dê uma solução. Mas, nem pense de tentar recuperar essa mágoa fruto da minha ausência. Tens comigo a liberdade que quero para nós.

Com a liberdade disponível, lembro de Dona Estultícia.
 
Comentários:
Muito bom. Muitíssimo interessante. Cheguei aqui pelos sinais da Dona. Bela atuação individual e ao mesmo tempo conjunta, uma coisa complementar. Saudações!
 
belo duelo, onde a gente torce sempre pro mais bandido dos dois. quem será, quem será? beijo. :)
 
oi, cheguei aqui pela dona estultícia e gostei muito do texto. Bela parceria de vcs e dialogar com ela não é fácil não. Sou fã dos textos dela. Sorte a sua e inveja minha (kkkk). Saudações!
 
Dona Estultícia cravou com unhas bem negras os meus olhos... tenho minha filha longe, deu um saudade... uma dor...
 
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