QuartoInteiro
quinta-feira, outubro 13, 2005
 

Muitas vezes se tem demonstrado que é tão rígida a sua fixação à vida habitual, mas de há muito perdida, que acaba por não se verificar a aplicação efetivamente humana do intelecto, a previdência, até mesmo ante o perigo iminente. Assim a imagem da estupidez completa-se nela: insegurança, ou mesmo perversão dos instintos vitais, e desfalecimento ou até decadência do intelecto.Walter Benjamin, em 'Rua de Sentido Único'

E se eu abrir a porta para a loucura entrar? E se formos até a clinica do doutor Cohen (médico da família)? Com seus enormes olhos castanhos entediados, perdidos em vitrines de uma rua em plena sexta-feira à tarde, ele nos atenderia em horários diferentes no consultório chique dos Jardins. O divã é confortável, aveludado, o ar em perfeito equilíbrio. Nem frio. Nem quente. O doutor é monossilábico, lacaniano. Ele sabe que falamos demais para ouvi-lo. Sabe que estamos ali apenas para tirar férias de alguma coisa mal-compreendida e esse mal é incurável.

Tenho certeza que ele nos receitará uma semana em sua clínica no interior. Eu conheço bem o doutor Cohen. Sua clínica é o SPA dos artistas neuróticos, dos enfarados de mal nenhum, dos endinheirados de agenda lotada, dos insandecidos por excesso de livros, filmes, idéias. Doutor Cohen com seu jaleco branco de letras bordadas em azul no bolso é esperto. Dá na medida exata o que seus clientes pedem. Anota coisinhas com as mãos gordinhas e assépticas no bloco com capa de couro. Unhas bem cuidadas e um belo relógio Rolex contando o tempo pelos segundos.

Em silêncio ele pensa: “são outros idiotas a criar problemas para suas cabeças ocas. Quisera ter a metade dessa disposição deles, mas eu só trato dessa gente. Sou um proctologista fazendo exame de toque no desconforto existencial. Fuço com meus dedinhos cuidadosos nas suas intimidades. Não, não tem nada aí, mas vamos checar melhor, vamos analisar melhor, vamos apalpar melhor. Não, não vai doer não”, eu sei que é isso que ele anota enquanto expõe coisas em termos clínicos com o propósito de me dar algum tipo de justificativa ao que lhe exponho. Mas não tenho pretensão que ele nos entenda, nem mesmo fazer valer ao valor dessa consulta.

É bonita a sede da clínica do doutor Cohen. Pelo menos é agradável nas fotos do folheto que ele entrega quando a consulta termina. Tem bosque, jardins etc. É cara também, mas isso não importa. Mas, se você quer brincar mesmo, só vale se for diversão tarja-preta (na área dos isolados). Lá, gritos são arrotos cotidianos e as palavras têm outro sentido. Dor de cabeça se cura com Vallium e para o café da manhã você veste camisa de força. Qual o seu tamanho mesmo? Aí, quem sabe, a gente durma junto por três dias amarrados por enormes fivelas que nos manterão presos à cama?

Quando podemos nos encontrar? Dona Estultícia.
 
Comentários:
imaginei:seria incrível descobrir que só um de vocês existe. Enquanto não sei quem são, ou se são, alimentam meu voyerismo. Antropo-lógico! eu fico lá, num reles monologar...
 
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