QuartoInteiro
quinta-feira, setembro 29, 2005
 

Como é o amor do outro lado da rua? Que roupa veste? Que cara tem? Quanto tempo entre um e outro novo amor (aquele que aparece escorregadio numa tarde da primavera e some pra nunca mais voltar) a gente calcula para saber que o fim está próximo? Sente-se aí na cadeira fria do hotel vagabundo que a nossa grana pode pagar a noite passada. Passe a mão nas pernas brancas, o friozinho circula na sala quase sem móveis, sem banheiro privativo e com um pia antiga ao lado da porta. Você pedia para eu fechar os olhos e se ajeitava para urinar ali mesmo, afinal tinha preguiça de sair do quarto e ir até o banheiro no corredor. Eu ficava te olhando com os olhos vidrados e sentia mais desejo por tudo aquilo. Cúmplices.

Trazia em copos plásticos um café preto e um pão com manteiga. Você sentada com suas meias brancas, anotando umas coisas na agenda que eu penso ser um diário. De repente pergunto: você não tirou as meias? Mas, você não responde. Tomo meu café e passo a mão nos teus cabelos despenteados. Vejo que as meias brancas estão sujas graças ao piso descuidado do hotel. Cada gole volta a pergunta: como é o amor aí do outro lado?

Nosso amor tem o tempo dos goles de café, dos copos plásticos deformados pelo líquido quente, de sorrisos leves e cabelos despenteados, dos pêlos arrepiados com o frio e dos joelhos curvados na pia. Saímos do hotel e não nos perguntamos nada, nem mesmo como vai ser o dia. Não trocamos opiniões. Não sabemos mesmo o que é verdade ou mentira. Acho que não interessa mais.


sem fatos, interpretações ou códigos. Daqui encontro Dona Estultícia.
 
segunda-feira, setembro 26, 2005
 

Todos os teus fãs de coisa nenhuma, deste sofrimento vazio, estão a se embriagar nesta linguagem esguia, sexy e bem lubrificada. Turbinam os bobos corações entediados de uma sexta-feira qualquer, solitária à margem de um rio fedido e, com as mãos cansadas, inundam com sêmem as águas que infectam um oceano vazio. E você a duelar outras histórias com quem te destila escárnios como método para sufocar o desejo reprimido de cruzar tua boca de um canto ao outro e enrolar duas línguas com vigor. Cheiro de plantas já mortas. Pouco sabem sobre o efeito em você de uma simples pétala, umas palavras doces e ordinárias, uma taça de tinto.
Sim, me diverte tudo isso. Queria ser menos canalha e não gozar tanto desse prazer que tiramos dessas matérias mórbidas, líquidas e rubras. Mas não sou. As minhas palavras são contidas na medida do teu exagero. E o teu exagero é como um verbo carnudo que circula guloso na pele do meu cotidiano. Derramas teus versos sobre os lençóis brancos da minha cama e deliras com tuas masturbações pós-modernas. Eu apenas te observo e digo sim, sim, sim... e peço mais, mais, mais. Sou teu cúmplice nessa utopia depravada e lambo os teus dedos dos pés, limpo as tuas cavidades e, por fim, coloco-me à disposição: sugo teus sentidos mais vis e hediondos. Sou quase feliz.

Sim, contenho meu desejo de tirar-te essas máscaras e te colocar nua, completamente exposta, numa avenida para conviver com a tua beleza carnal. Exorto (e ao mesmo tempo deliro) nesta mania de te expor em corredores, escritórios e igrejas, onde homens salivam diante da tua tez infantil. Homens querendo te sodomizar em largas salas de corporações, mictórios públicos, casas de massagem, enquanto recitas os teus supostos infernos. Eles te cobiçam, sentem medo e roçam o sexo diante do teu pedestal. E você aí a me perguntar sobre o que fazer com tudo isso?
Não me depravo por pouco. Não sinto prazer em camas de espinho. Gozo e te dou a volta na medida do que pedes. Não sonho em ver nada além dessa alma disfarçada. Talvez. Sou assim e aprendi a negociar com isso desde pequeno. E não ouses abusar do luxo do meu prazer que, afinal, te guardo a parte mais límpida. Não ouse me fazer rires dessa tua alma moralista com falsa moral. Prefiro-te Geni mil vezes. Mil vezes este teu estranho escapulário pendente entre a prostituta e a carola. Quando me visto de outros trajes é justamente porque esta tara tem limites. Limites de uma educação judaica, limites de uma idade que segue mostrando que os joelhos já não são como antes. Mas, não ouse me dizer isso nunca!

Blasfêmias, declarações, cartas e memórias curtas. Notas para Dona Estultícia.
 
quinta-feira, setembro 22, 2005
  Sete cidades do EU
Entre um café e outro, uma reunião e outra (tão distante daí), não resisti à vontade de escrever. Te ofereço como presente!

Caminhei sobre a pele escura da avenida. O asfalto quente e trêmulo das 4 horas da manhã mostra que um dia nunca termina de verdade. Curioso, penetro entre os prédios ávido de algo que nem sei ao certo: tudo é dúvida e calçada. Pelas ruas com os olhos fechados tateio os sinais e me dou conta de que é impossível sentir o todo numa coisa só. Tudo contém fragmentos, líquidos, gostos, texturas que remetem à novas combinações. O nome desse país eu ainda não sei, mas sei que sou eu a rota e os rastros do caminho.

Primeiro destino: ENCANTO. Entre uma e outra esquina, toda crença leva que um ponto oportuno que fará a junção entre o acaso e ao divino. Por isso, desenho teu retrato e colo nas janelas, paredes e murais para que a gente se reconheça quando cruzarmos lado a lado. Aqui eu estive! Aí, o nome da será: Rua do anseio realizado (onde mãos desconhecidas dançam farejando umas nas outras no escuro).

Quando vago por ENCANTO, meus pés cansados de tanto asfalto procuram repouso. São as rotas, desvios e mapas tão voláteis. Inusitadamente, quando caminho de um lado para outro vejo os CEPs mudando a cada segundo. Nossos destinos são mesmo números aleatórios.

A busca do imprescindível percebo com enorme distância. O caminho é duro e, quando parei para tentar saber onde estava já era outra cidade: ACONCHEGO. Ruas singelas, coloridas, colo bem definido e peles macias. Meus olhos fechados sentiram-se tão livres para se abrir. Tanto tempo entre tantas ruas e, subitamente, já estou em outra cidade. Deito-me diante dos teus tecidos, sossego à sombra da tua copa, sinto o teu gosto na boca. Teu gosto é energia. ACONCHEGO é assim: experiência dos sentidos. Contudo, por não entender ser esta a minha pousada, na brisa do descanso e com os olhos e ouvidos em lágrimas, tive chance de sentir novos murmúrios sedutores.

DELÍRIO, a cidade onde as formas evaporam. E cheguei através de um sonho. As substâncias e essências fundem-se no calor formando novos signos. Os signos também evaporam e, conseqüentemente, formam coisas sem nome. Em DELÍRIO, todas as substâncias somem e renascem outras o tempo todo. Quem resiste ao calor do centro dessa substância mantendo sua essência por muito tempo? Aqui, eu mesmo me transformei e só ressuscitei por ter uma busca indefinida.

E, quando a gente sai de DELÍRIO deve mesmo passar tempo vagando, pois fica difícil saber onde estão as fronteiras. Onde estamos? O que queremos? Não são perguntas para se fazer. Uma vez fora, você sai e sente um gosto farto na boca e, também, vontade voltar. Mas é impossível voltar ao mesmo ponto. Como nas outras cidades, exceto uma, o caminho para chegar é aleatório.

Você chega sem fôlego em VERDADE, a cidade onde tudo que você é fica diferente. Em verdade fatalmente vai cruzar consigo mesmo numa esquina. E não há muito mais para se visitar. A visão de verdade nunca é plena e dizem que se você olhar demais fica cego. Por aqui não se deve procurar nada, mas buscar no que já existe, pois sua bagagem é pesada demais para ser levada. Apesar dos frios murais que estampam campanhas publicitárias indecorosas e dos jardins com bancos de pedra, visitar VERDADE é uma experiência transformadora. Andando com os pés firmes você se sente confiante para dar outros passos até ficar estranhamente mais leve tão leve quanto o ar. E você flutuará até o ponto mais próximo.

Em LIBERDADE as ruas são ensolaradas e as praças repletas de pessoas. Perto dali existe um bosque imenso e florido, onde as flores têm nomes fantásticos. Você nem sabe como, mas sabe os nomes todos de todas as flores. Novas palavras surgem no seu vocabulário. Inesperadas. E é possível que, de uma hora para outra, você se prive de entrar no parque e o bosque se torne estranhamente assustador. Os nomes ficam turvos e LIBERDADE se transforma num ambiente hostil. Afinal, esta cidade só existe de fora para dentro. E você só pode sair daqui pelo mesmo caminho que entrou. O tempo sofrido e, quem sabe, você cruze o bosque que o levará até PRAZER.

PRAZER é como entrar num vasto mundo de salas. E cada porta leva novamente por todos os lugares onde você andou, afoito, e tudo esqueceu de ver que as setas que apontavam para cá. Mas, ninguém chega aqui sem ter passado antes pelas outras cidades. É um ciclo inevitável. Mesmo os atalhos são ilusórios e mutantes e as impressões aparentes. Esta cidade é feita de percepções que nem todos os olhos e juízos são capazes de fundar.

Uma vez em PRAZER, por fim, talvez você finalmente possa descansar das caminhadas enormes e saborear a vida como uma fruta colhida do pé. Ou, quem sabe, o sol que inunda o dia, e cuja construção levou milhões de anos até chegar à perfeição tão acessível de hoje, você sinta tão leve e suave esse carinho. Nesta cidade é tudo tão calmo que você esquece de você mesmo. Esquece e respira. Assim, solto, você caminha de novo. Sem destino, pois em PRAZER você segue para todos os caminhos.

Um dia, tateando as coisas e redescobrindo-lhe os sentidos, numa mesma esquina, antes turva e sem sentido, agora despretensiosa no andar é capaz de algo tocar tua alma de uma forma estranha. Intensamente. E seu nome vai ser tão grande que a palavra “universo” não basta. Então, você finalmente chegou em ENCONTRO. Encontro é onde tudo e nada batem palmas. As palavras são apenas para o prazer de ouvir. A graça da criação, da consagração maior obtida através de você mesmo, aparece em segundos. Em ENCONTRO o destino parece fácil mesmo, tão fácil que é comum esquecermos que as estradas geralmente nos levam para outros lugares.

Entre caminhadas e paradas, daqui se pode chegar até Dona Estultícia.
 
terça-feira, setembro 13, 2005
  Imaginando dias
Incrível! Eu devia escrever de forma ferina para acompanhar as tuas letras tão bem delineadas nesse rosto indecifrável, mas as palavras que surgem são delicadas. Devia deixar o resto de plasticidade viril que mora nessa cabeça agir sobre este corpo. Mas, ao contrário da loucura que hoje até me diverte, sinto dificuldade nos extremos do sentimento. É capaz desses cinqüenta e seis anos bem vividos e desfrutados, agora com os privilégios de aposentadoria precoce (graças a isso hoje arrisco essas linhas cotidianas), tenham me deixado preguiçoso para os extremos. Prefiro mil vezes flutuar num Pinot ao pôr-do-sol e desfrutar de coisas tão simples que, se eu contasse, é possível que você achasse graça. Ou covardia – tem horas que essas sensações se confundem. Mas, veja, esses anos diante de números e cálculos, administrando o dinheiro – e a vida – de outras pessoas, me deixaram possivelmente sem compreender ou, quem sabe atingir, esse “elan” típico dos artistas. Velho demais para conviver com a auto-destruição. Metódico demais para jogar tudo para o alto. Raso para entender o ódio de uma forma que não seja explícita. Por isso mesmo é que sei que essas notas – repletas de riscos e monotonia nas formas – talvez sejam mínimas para a tua leitura.

Assim, escrevo apenas para estar em algum lugar entre o fim laranja do dia que se encerra e o manto negro da noite que cai. Olho para o meu jardim erguido com meus próprios punhos e penso quase de forma egoísta que para mim existiram dias tão “abensonhados” (termo cunhado pelo escritor moçambicano Mia Couto num dia de exercício com as palavras). Sinto escrúpulos em protestar sobre a minha vida e ridículo em criticar outros mundos aos quais não tive real conhecimento. Sim, existem horas de medo profundo do tempo que corre sangrando pela varanda e me dou conta de tantas coisas que não sei (e tantas outras que você tem me submetido). Mas, aqui deste quarto que durante a vida foi divido com tantas outras pessoas - e só agora gozo da solidão necessária - há tanta vontade para o mundo que, se há algo pelo qual sofrer, é o fato de não poder ter todas as mobílias que parecem fazer falta quando estamos sozinhos. Mas a mesa está bem perto da janela e fiz uma moldura com uma bela reprodução de paisagem falsa (desde pequeno essas imagens me encantam). Coloquei também uma cópia do Inferi na parede. Colei com uma fita crepe. Sabe, tuas palavras tristes e áridas me balançam (que palavra feia!). Não entendo esse sentimento. É novo e desafiador para um velho Virginiano com ascendente em Câncer. Não sei o que significa, mas essa é mais uma razão para essas horas tão cheias de espaço.

Daqui se fazem palavras e brindes (com tinto,é claro) para Dona Estultícia.
 
sexta-feira, setembro 09, 2005
 
Pequenas lições que resgatamos em algum baú de memórias para juntar na massa que ao longo dos anos selará as paredes do eu. Como não pode ser diferente, as memórias reverberam dentro das nossas cabeças ocas. Comigo, algumas passagens se deram de forma absolutamente natural e nunca me importei muito com essas coisas de sangue, merda, pasto, latidos e grunhidos. Minha avó paterna ensinou onde ficava o açougue (ao lado da fruteira), depois olhou bem nos meus olhos e perguntou: aprendeste? Daquele dia em diante eu fui às compras sozinho. O açougueiro tinha uma cara bonachona que nem combinava muito com aquele avental de plástico sujo de sangue. Pegava um naco de carne com habilidade e prazer, ficando resto daquilo que não havia sido empacotado em papel pardo entre as suas unhas. No primeiro caminho que fiz em direção ao açougue com minha avó formatamos coisas que, hoje, ocupam uma dimensão profunda.

Esse momento foi marcado por novas regras: não fale com estranhos; atravesse somente quando o sinal estiver fechado e as outras pessoas atravessarem; atravesse entre as pessoas; na dúvida, nunca corra; olhe sempre para os lados. Senti pela primeira vez o olhar sério de um adulto, coisa que eu registrei e minha vida foi um pouco diferente depois daquele. Meu pai fez esse ritual comigo muitas vezes e de alguma forma eu me julgava mais preparado para a vida.

Carrego essas bagagens sem me dar conta. Lembro, também, do dia de finados, tão comemorado durante um tempo quanto Natal. Era o dia de comprar flores, vestir preto e as senhoras usando grandes chales de tricô cobrindo a cabeça. As velhas e jovens pareciam fadistas numa convenção. Toda a minha família visitava o túmulo do meu avô. Eu seguia, seguro pela mão forte do meu pai, lendo inscrições em lápides: Amou e foi amado nesta vida; fica a saudade daqueles que continuam aqui. De tal sorte que, ao contrário de medo, aquela coisa de finados tinha tanto de amor, tanto de carinho e buquês de flores coloridas. Havia choro, sim. Mas era um choro saudoso. E, mesmo uns pequeninos caixões brancos não me causavam nenhum tipo de inquietação. Uma vez ouvi: eram os anjinhos voltando para o céu! Cheguei mesmo a sentir inveja dos meninos-anjos que retornavam ao céu ideal herdado de uma católica.

Por isso, a morte não me assusta. Nem mesmo em seus aspectos mais terríveis. Fui bem prevenido e tenho mais cuidado com as coisas vivas e pulsantes. Atentamente observo aos mais vivos, cujos corações parecem bater demais – o meu mesmo já pregou tantas peças!


Um refrão de música: cuántas veces tendré que morir para ser siempre yo?
Daqui você também pode passear com Dona Estultícia.
 
segunda-feira, setembro 05, 2005
 

Dia de coisas pequenas. Deixar o texto ficar preguiçoso a ponto de abrir mão das metáforas (é possível?), fetiches e outras possíveis patologias todas (bem justificadas no século passado). Este quarto inteiro é um universo tão amplo que, ao mesmo tempo, preciso reduzir o espaço para ficar contando os limites no teto. Como sou preguiçoso, gosto é de deitar às vezes no colo seguro da conveniência.

As vísceras: exatamente o que interessa para esse moedor de significados. Também interessam os brutos, bagaços, vesículas, sementes e caroços. Interessa a casca, tanto quanto a essência fina e suave do suco. Não são os árabes que lêem o futuro na borra do café? Então, como eu poderia fazer diferente? Quem sou eu para desafiar os árabes!

Desligo os cenários e artifícios. Só leio e olho as partes que se apresentam em letras sinuosas. Ainda sou gentil o suficiente para cometer delitos em dose homeopática: grudo os olhos na luneta. Foco! Visitarei os detalhes com a gula que os dias e as noites são capazes de oferecer - e quero os mais vistosos tapetes cobrindo lindamente os teus seis portais. Para todas viagens ofereço como resposta três dias de invasão ilimitados. Como Maomé II, me comprometo preservar a beleza e a alvura das coisas. O resto será impiedosamente invadido ao término de três dias. Lembre: uma vez que sou invasor não tenho outra conseqüência senão tomar tudo que for possível carregar nas mãos e levar para o meu universo egoísta (também chamado de quarto).

Os melhores sucos deste quarto são compartilhados com Dona Estultícia.
 
sexta-feira, setembro 02, 2005
  Hagia Sofia

Lembra do affair entre Deckard e Rachel? Diante daquela engenhoca hi-tec produzida pela Nexus, cuja lente invade a intimidade de sua retina, ela pegunta: isso já é o teste? Sou uma Replicante? Sou humana? Sou, afinal, uma tecnologia desenvolvida pela Nexus ou filha de Deus? Nem Deckard sabia sua própria origem. Quem sabe?

Quando é a recompensa? Quando, os replicantes saberão lidar com sua ausência de passado e inexperiência emocional. Nunca! Prefiro distinguir curvas e peitos com os olhos fechados, tateando a essência alva do algodão. Prefiro fazer uma fenda onde encontre um pouco de pele e sentir o gosto da essência humana que ainda resta. Isso será a recompensa?

Maomé II com seu falo gigantesco de oito metros de comprimento, cujo gozo bélico produzia jatos estupendos de 550 quilos, rompeu sem piedade e vaselina as vinte e duas muralhas da Constantinopla como se fossem manteiga. Mas, os orgasmos bélicos sultão renderam-se à beleza marmórea e feminina da mega-cidade. Da sua tenda rubra, com os olhos esbugalhados e fios de baba escorrendo entre os lábios grossos e a barba negra, não escondendeu mais sua fissura. Maomé II ordenou ao general Jalil Paxá que lhe trouxesse a Maçã de Prata. O sultão estava possuído!! Mesmo assim, no auge do gozo, o conquistador foi racional a ponto de calar seu poderoso falo e fazer com que seus 100 mil homens tomassem a cidade com espadas, sangrando a gargantas dos crentes enquanto os murmúrios ainda ecoavam pelas torres da catedral de Santa Sofia: Perdoa-nos senhor!!! Tudo isso para preservar seu delíro pela beleza da cidade.
Hipnotizado, o líder máximo dos turco-otomanos, cruzou os portões gozando com a força plena seus pulmões: a cidade é minha! Liberou aos seus valorosos guerreiros para três dias de orgias e pilhagens, mas, exigiu que poupassem as belezas. As suas belezas. Manteve praticamente intacta Hagia Sofia para construir nela seu próprio templo.

Não me importa o tempo, nem a proporção das muralhas que me separam de Hagia Sofia, não me importa o sangue ao longo do caminho. Talvez até me motive. Contudo, cobrarei com fúria os meus três dias legítimos.

Observo com minha luneta os detalhes de Dona Estultícia.
 

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