QuartoInteiro
quinta-feira, setembro 22, 2005
  Sete cidades do EU
Entre um café e outro, uma reunião e outra (tão distante daí), não resisti à vontade de escrever. Te ofereço como presente!

Caminhei sobre a pele escura da avenida. O asfalto quente e trêmulo das 4 horas da manhã mostra que um dia nunca termina de verdade. Curioso, penetro entre os prédios ávido de algo que nem sei ao certo: tudo é dúvida e calçada. Pelas ruas com os olhos fechados tateio os sinais e me dou conta de que é impossível sentir o todo numa coisa só. Tudo contém fragmentos, líquidos, gostos, texturas que remetem à novas combinações. O nome desse país eu ainda não sei, mas sei que sou eu a rota e os rastros do caminho.

Primeiro destino: ENCANTO. Entre uma e outra esquina, toda crença leva que um ponto oportuno que fará a junção entre o acaso e ao divino. Por isso, desenho teu retrato e colo nas janelas, paredes e murais para que a gente se reconheça quando cruzarmos lado a lado. Aqui eu estive! Aí, o nome da será: Rua do anseio realizado (onde mãos desconhecidas dançam farejando umas nas outras no escuro).

Quando vago por ENCANTO, meus pés cansados de tanto asfalto procuram repouso. São as rotas, desvios e mapas tão voláteis. Inusitadamente, quando caminho de um lado para outro vejo os CEPs mudando a cada segundo. Nossos destinos são mesmo números aleatórios.

A busca do imprescindível percebo com enorme distância. O caminho é duro e, quando parei para tentar saber onde estava já era outra cidade: ACONCHEGO. Ruas singelas, coloridas, colo bem definido e peles macias. Meus olhos fechados sentiram-se tão livres para se abrir. Tanto tempo entre tantas ruas e, subitamente, já estou em outra cidade. Deito-me diante dos teus tecidos, sossego à sombra da tua copa, sinto o teu gosto na boca. Teu gosto é energia. ACONCHEGO é assim: experiência dos sentidos. Contudo, por não entender ser esta a minha pousada, na brisa do descanso e com os olhos e ouvidos em lágrimas, tive chance de sentir novos murmúrios sedutores.

DELÍRIO, a cidade onde as formas evaporam. E cheguei através de um sonho. As substâncias e essências fundem-se no calor formando novos signos. Os signos também evaporam e, conseqüentemente, formam coisas sem nome. Em DELÍRIO, todas as substâncias somem e renascem outras o tempo todo. Quem resiste ao calor do centro dessa substância mantendo sua essência por muito tempo? Aqui, eu mesmo me transformei e só ressuscitei por ter uma busca indefinida.

E, quando a gente sai de DELÍRIO deve mesmo passar tempo vagando, pois fica difícil saber onde estão as fronteiras. Onde estamos? O que queremos? Não são perguntas para se fazer. Uma vez fora, você sai e sente um gosto farto na boca e, também, vontade voltar. Mas é impossível voltar ao mesmo ponto. Como nas outras cidades, exceto uma, o caminho para chegar é aleatório.

Você chega sem fôlego em VERDADE, a cidade onde tudo que você é fica diferente. Em verdade fatalmente vai cruzar consigo mesmo numa esquina. E não há muito mais para se visitar. A visão de verdade nunca é plena e dizem que se você olhar demais fica cego. Por aqui não se deve procurar nada, mas buscar no que já existe, pois sua bagagem é pesada demais para ser levada. Apesar dos frios murais que estampam campanhas publicitárias indecorosas e dos jardins com bancos de pedra, visitar VERDADE é uma experiência transformadora. Andando com os pés firmes você se sente confiante para dar outros passos até ficar estranhamente mais leve tão leve quanto o ar. E você flutuará até o ponto mais próximo.

Em LIBERDADE as ruas são ensolaradas e as praças repletas de pessoas. Perto dali existe um bosque imenso e florido, onde as flores têm nomes fantásticos. Você nem sabe como, mas sabe os nomes todos de todas as flores. Novas palavras surgem no seu vocabulário. Inesperadas. E é possível que, de uma hora para outra, você se prive de entrar no parque e o bosque se torne estranhamente assustador. Os nomes ficam turvos e LIBERDADE se transforma num ambiente hostil. Afinal, esta cidade só existe de fora para dentro. E você só pode sair daqui pelo mesmo caminho que entrou. O tempo sofrido e, quem sabe, você cruze o bosque que o levará até PRAZER.

PRAZER é como entrar num vasto mundo de salas. E cada porta leva novamente por todos os lugares onde você andou, afoito, e tudo esqueceu de ver que as setas que apontavam para cá. Mas, ninguém chega aqui sem ter passado antes pelas outras cidades. É um ciclo inevitável. Mesmo os atalhos são ilusórios e mutantes e as impressões aparentes. Esta cidade é feita de percepções que nem todos os olhos e juízos são capazes de fundar.

Uma vez em PRAZER, por fim, talvez você finalmente possa descansar das caminhadas enormes e saborear a vida como uma fruta colhida do pé. Ou, quem sabe, o sol que inunda o dia, e cuja construção levou milhões de anos até chegar à perfeição tão acessível de hoje, você sinta tão leve e suave esse carinho. Nesta cidade é tudo tão calmo que você esquece de você mesmo. Esquece e respira. Assim, solto, você caminha de novo. Sem destino, pois em PRAZER você segue para todos os caminhos.

Um dia, tateando as coisas e redescobrindo-lhe os sentidos, numa mesma esquina, antes turva e sem sentido, agora despretensiosa no andar é capaz de algo tocar tua alma de uma forma estranha. Intensamente. E seu nome vai ser tão grande que a palavra “universo” não basta. Então, você finalmente chegou em ENCONTRO. Encontro é onde tudo e nada batem palmas. As palavras são apenas para o prazer de ouvir. A graça da criação, da consagração maior obtida através de você mesmo, aparece em segundos. Em ENCONTRO o destino parece fácil mesmo, tão fácil que é comum esquecermos que as estradas geralmente nos levam para outros lugares.

Entre caminhadas e paradas, daqui se pode chegar até Dona Estultícia.
 
Comentários:
sou meu sapato
 
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