Imaginando dias
Incrível! Eu devia escrever de forma ferina para acompanhar as tuas letras tão bem delineadas nesse rosto indecifrável, mas as palavras que surgem são delicadas. Devia deixar o resto de plasticidade viril que mora nessa cabeça agir sobre este corpo. Mas, ao contrário da loucura que hoje até me diverte, sinto dificuldade nos extremos do sentimento. É capaz desses cinqüenta e seis anos bem vividos e desfrutados, agora com os privilégios de aposentadoria precoce (graças a isso hoje arrisco essas linhas cotidianas), tenham me deixado preguiçoso para os extremos. Prefiro mil vezes flutuar num Pinot ao pôr-do-sol e desfrutar de coisas tão simples que, se eu contasse, é possível que você achasse graça. Ou covardia – tem horas que essas sensações se confundem. Mas, veja, esses anos diante de números e cálculos, administrando o dinheiro – e a vida – de outras pessoas, me deixaram possivelmente sem compreender ou, quem sabe atingir, esse “elan” típico dos artistas. Velho demais para conviver com a auto-destruição. Metódico demais para jogar tudo para o alto. Raso para entender o ódio de uma forma que não seja explícita. Por isso mesmo é que sei que essas notas – repletas de riscos e monotonia nas formas – talvez sejam mínimas para a tua leitura.
Assim, escrevo apenas para estar em algum lugar entre o fim laranja do dia que se encerra e o manto negro da noite que cai. Olho para o meu jardim erguido com meus próprios punhos e penso quase de forma egoísta que para mim existiram dias tão “
abensonhados” (termo cunhado pelo escritor moçambicano Mia Couto num dia de exercício com as palavras). Sinto escrúpulos em protestar sobre a minha vida e ridículo em criticar outros mundos aos quais não tive real conhecimento. Sim, existem horas de medo profundo do tempo que corre sangrando pela varanda e me dou conta de tantas coisas que não sei (e tantas outras que você tem me submetido). Mas, aqui deste quarto que durante a vida foi divido com tantas outras pessoas - e só agora gozo da solidão necessária - há tanta vontade para o mundo que, se há algo pelo qual sofrer, é o fato de não poder ter todas as mobílias que parecem fazer falta quando estamos sozinhos. Mas a mesa está bem perto da janela e fiz uma moldura com uma bela reprodução de paisagem falsa (desde pequeno essas imagens me encantam). Coloquei também uma cópia do
Inferi na parede. Colei com uma fita crepe. Sabe, tuas palavras tristes e áridas me balançam (que palavra feia!). Não entendo esse sentimento. É novo e desafiador para um velho Virginiano com ascendente em Câncer. Não sei o que significa, mas essa é mais uma razão para essas horas tão cheias de espaço.
Daqui se fazem palavras e brindes (com tinto,é claro) para
Dona Estultícia.