
Como é o amor do outro lado da rua? Que roupa veste? Que cara tem? Quanto tempo entre um e outro novo amor (aquele que aparece escorregadio numa tarde da primavera e some pra nunca mais voltar) a gente calcula para saber que o fim está próximo? Sente-se aí na cadeira fria do hotel vagabundo que a nossa grana pode pagar a noite passada. Passe a mão nas pernas brancas, o friozinho circula na sala quase sem móveis, sem banheiro privativo e com um pia antiga ao lado da porta. Você pedia para eu fechar os olhos e se ajeitava para urinar ali mesmo, afinal tinha preguiça de sair do quarto e ir até o banheiro no corredor. Eu ficava te olhando com os olhos vidrados e sentia mais desejo por tudo aquilo. Cúmplices.
Trazia em copos plásticos um café preto e um pão com manteiga. Você sentada com suas meias brancas, anotando umas coisas na agenda que eu penso ser um diário. De repente pergunto: você não tirou as meias? Mas, você não responde. Tomo meu café e passo a mão nos teus cabelos despenteados. Vejo que as meias brancas estão sujas graças ao piso descuidado do hotel. Cada gole volta a pergunta: como é o amor aí do outro lado?
Nosso amor tem o tempo dos goles de café, dos copos plásticos deformados pelo líquido quente, de sorrisos leves e cabelos despenteados, dos pêlos arrepiados com o frio e dos joelhos curvados na pia. Saímos do hotel e não nos perguntamos nada, nem mesmo como vai ser o dia. Não trocamos opiniões. Não sabemos mesmo o que é verdade ou mentira. Acho que não interessa mais.
sem fatos, interpretações ou códigos. Daqui encontro Dona Estultícia.