E assim seguem...
criando espacinhos no cotidiano, pequenos lugares onde exercem um micro-poder tacanho e se entregam ao conforto das opiniões semelhantes. Dividem com aço menos afiado os pontos-de-vista entre carnes iguais. A opulência reina nas dobrinhas, meias de seda, casacos de couro, cintas-liga, ternos alinhados. Aos outros - às estruturas rivais - se transformam em mini-ditadores pernósticos. Seguem ardendo, com as mãos trêmulas, as lamparinas todas unidas numa aferição da permanência desta “luzilusão” por todos os espaços onde os micro-poderes estabelecidos são protegidos como osso. Eles garantem a sobrevivência dos cães danados.
há quem diga que isso basta. O velho hábito de segurar o osso entre os dentes. Experienciar o que? Experimentar para que? Só os movimentos que forem precisos, calculados e evitando sempre que os dedos fiquem queimados. Aí, nesse caso, serve. Aos poucos, em lentos processos, as micro-estruturas aglutinam-se até formarem uma mega-estrutura, um fosso arqueológico de sistemas de ultima geração. De uma hora para outra, pronta para formular novas convenções no que antes era a delícia da negação, agora jaz um antro de dogmas. Inevitavelmente, ao poder só interessa a dominação, ou melhor, subjulgar pela afirmação, pelas rédeas da teimosia ou do martelo, um cabedal de valores tão pessoais.
... Há o que ele quis dizer, o que pensamos que ele quis dizer; o que ele disse sem o querer e contra si mesmo. (Gide sobre Rimbauld)Afinal, quem inventou você? Desde que surgiste e decidimos que seria melhor assinar do mesmo jeito, uma única vez através de um único traço, muita coisa aconteceu. Aquilo que era para ser uma coisa simples, dessas economias de tempo, lápis e idéias, e virou um cativeiro. Na urgência das novas situações você se omite. E quando é preciso uma palavra, sou eu quem se lambuza no verbo. Caio de boca. Na hora do reflexo, na tua vez de desviar com a velocidade que sempre exigiste em meus tombos, ficaste imóvel. Sangro por nós dois agora. Sou eu sempre quem quebra a cara. No final escuto o teu sermão.
A última bala, deflagrada num momento de loucura, atravessou meu peito e saiu pelas costas. Com um certo esforço é possível para você vislumbrar a intimidade dos meus órgãos, meu coração descompassado, exposto, furado. E você aí: transparente, calado, frio. De tanto isso e aquilo, o único reflexo que vemos no espelho é o meu – a mais absurda das coisas que me roubaste.