... Há o que ele quis dizer, o que pensamos que ele quis dizer; o que ele disse sem o querer e contra si mesmo. (Gide sobre Rimbauld)Afinal, quem inventou você? Desde que surgiste e decidimos que seria melhor assinar do mesmo jeito, uma única vez através de um único traço, muita coisa aconteceu. Aquilo que era para ser uma coisa simples, dessas economias de tempo, lápis e idéias, e virou um cativeiro. Na urgência das novas situações você se omite. E quando é preciso uma palavra, sou eu quem se lambuza no verbo. Caio de boca. Na hora do reflexo, na tua vez de desviar com a velocidade que sempre exigiste em meus tombos, ficaste imóvel. Sangro por nós dois agora. Sou eu sempre quem quebra a cara. No final escuto o teu sermão.
A última bala, deflagrada num momento de loucura, atravessou meu peito e saiu pelas costas. Com um certo esforço é possível para você vislumbrar a intimidade dos meus órgãos, meu coração descompassado, exposto, furado. E você aí: transparente, calado, frio. De tanto isso e aquilo, o único reflexo que vemos no espelho é o meu – a mais absurda das coisas que me roubaste.