QuartoInteiro
Visões dispersas de uma carta nascendo
Esta tarde inteira, vazia, disponível, sonolenta, obesa. Esta tarde que eu vejo com uns olhos displicentes, confusos, agoniados, carentes. Esta tarde tem teu nome. Eu tanto quis, tanto disse, que anotei em algum papel cujo destino já desconheço. É possível que esteja por aqui, rascunhado entre todas as minhas anotações, em cada folha que eu deixo impressas linhas tão vagas: teu nome. Todas as sobreposições, histórias absurdas, recuos, traições, enfim, entre essa literatura que eu sempre vou chamar de pobre, pois ela pede uma única pedra preciosa, a palavra escarlate, a pérola das pérolas dos personagens que eu jamais serei capaz de construir: VOCÊ.
Por entre as ruas do Alfama ando e bebo vinho barato. Da janela dos elétricos vejo tudo quadro a quadro. Trocaria num piscar de olhos esta velha arquitetura tão desejada por mim, este acumulado de pedras, pessoas e histórias, e todas essas antenas e telhados que formam verdadeiramente uma bela paisagem, para estar entre as paredes brancas do teu quarto.
E o Tejo hoje está lindo.
Essas chamas são enjôo do meu próprio eu. Contrastam com essa tua imensa capacidade de autogestão dos sentidos e me fazem pensar tanto. A tarde reclama algo nobre, mas o que tenho são as minhas pernas a fazerem rotas tão indefinidas e um café para reconstituir um pedaço da sobriedade. O garçom olha com uma cara curiosa. Brasileiro? Respondo sim com um sorriso antipático. Desaponto-o. Ele queria algo menos português nos meus olhos, mas só tenho por aqui uns fados tristes.
16 horas e o sol está gentil ainda. Nos milhares de quilômetros, no fuso horário, nos destinos que nos separam, imagino-te melhor. Resolvi escrever para você e é tão estranho pensar na velocidade das coisas, pois é possível que, ao chegar em tuas mãos, essa sensação que agora eu sinto seja outra. Desenho em letras formais a primeira frase desta carta:
Como sou impaciente com o mundo! Não gosto desse início, mas insistirei. E é preciso, agora, procurar as frases que seguirão.
* Foto: Hugo Carvalho
A carta que eu nunca te escrevi
:: Introdução clichê
Correr pela avenida Liberdade, ou pela rua do Alecrim, tem sido um ato de libertação. Lisboa está fria e penso em como esse frio combina com a tua pele branquinha. Engraçado, gosto ainda mais de você no frio (se é que isso é possível). Desde que parti (e dissemos que era para sempre) não consigo deixar de pensar um minuto sequer em você. Admito que sou estúpido e que, de alguma forma, isso faz mal a nós dois. Ainda assim, esses dias escrevi essa carta enquanto esperava alguém. É um ensaio de carta, afinal, não me dei ao trabalho de revisar. Não, não é de amor. Ou é? Não sei. Por isso mesmo é que se chama "A carta que eu nunca te escrevi". Agora vou nessa que a noite vai ser fria e mais tarde vou comer caldo verde e beber vinho tinto. :: A carta propriamente ditaNenhum de nós tem mais coragem para “ser” do outro. O jogo é sujo mesmo e as pedras são colocadas nesse tabuleiro para confundir as mentes. Criam limo. Somos cotidianamente o “nada ao lado”, flores decorativas, música de fundo, beijos sem olhares. Prazeres que já perderam a graça e que ainda gozam por estímulo. Nenhum dos dois tem mais vontade/possibilidade de ser ao outro. Conjugada sem vontade, ao lado, a mão escorregadia procura o próprio bolso. Eu minto e me perco.
Corremos para lugares distantes e afirmamos sempre, sempre, que a vista, a tua vista, daqui de cima é mais bonita. Eu tenho umas palavras reprimidas que já estão gastas. Tenho me reprimido também, sabe? Como sou o algoz da minha auto-biografia, sou a foto errada no teu álbum, a foto de dois sorrisos abraçados que nunca residiu no teu porta-retrato, a sensação de que os teus melhores foram os outros: os mais amenos, os mais tranqüilos, os mais exatos, os mais teus.
No tempo de jogar gentilezas ao destino, o tempo certo - se é que existe esse tempo -, eu simplesmente deixei passar. E produzi zumbis. E vamos, assim, nos matando cada vez mais aos pouquinhos. Por que não conseguimos nos matar de vez? Morte súbita. E nem posso te dar certeza de quando esse corpo morrerá? Condenados, nossos momentos de melhores sorrisos, de melhores belezas, de melhores carinhos para quem são?
Aos outros, infelizmente. E ao que fica resta suportar a hora inútil, a hora escorregadia de tédio do mundo, a hora que estamos entre o nada e o fim. Ao outro resta sempre ser o meio, a transição, a ausência remediada, o conflito sem solução, o estar ausente. Nessa pedra acomodamos o real sentimento, grosso, denso, finito. Sim, é triste. Por que eu serei o que fica. Contraditoriamente. Afinal, a tristeza é a metade que coube para mim. É o sorriso recebido com ressalvas, o sorriso que tem gosto dos piores: piedade, resignação, tolerância, comodismo. O sorriso de (des)confiança . Não há prazer sem liberdade e não há prazer com verdade demais.
Eu quero mesmo é abandonar a minha verdade numa curva qualquer. Eu procurei em todos os cantos o “nem sei”, o inominável, o indivisível, o inegável. Uma estupidez. Procurei em outras aquilo que você me fez desejar e não quis me dar. Mas, por enquanto, a negação sempre volta com teu nome. Sempre.
*foto: Cristina Garcia Romero
Duas notas
“Não reconheço. Não desconheço. Simplesmente assim, na crueza da palavra ríspida, cuspida e praguejada, a vulgaridade viril do meu egoísmo, deste ensimesmado universo do meu quarto, sou um déspota cretino. Por essas bandas não há democracia nenhuma. Nem juiz, jurado, platéia. Não há tribunal. E quero assumir para mim o rigor e a potência dessa natureza, onde debruçarei minhas maldições diárias”.Intervenção 1.Um mendigo cuspiu nas pessoas que passavam perto dele. Simples assim, chegava de fininho e cuspia nos outros. Puxava um catarro das grotas dos pulmões e expelia. Podia ficar sentado nas calçadas e, como tantos outros, permanecer prostrado com cara de galinha em dia de domingo. Em vez disso, assustava e cuspia as pessoas que passavam apressadas depois do almoço. De tempos em tempos tirava o pau para fora das calças frouxas e mijava em torno de si mesmo. E ria um riso franco, delirante, riso de louco, e louco deve mesmo é achar graça dessa porra toda. Eu fiquei com vontade de rir também. Até deu vontade de tirar o pau para fora e mijar naquela gente que passava. Mas, fiquei com medo de, afinal, andar louco como o mendigo.
O diabrete estava em dia de juízo final, cantando com a boca aberta, desdentada e podre, um la-la-lááááááá absurdo.
la-la-lááááááá, vai cortar meu pau. la-la-lááááááá, vai chupar meu pau.Aos que esboçaram uma reação indignada ele simplesmente dava as costas. E seguia rapido para não ser pego. O seu olhar não tinha um alvo específico e, quando eventualmente se deparou com um outro olhar, o meu, atravessou-me como se enxergasse do outro lado.
Intervenção 2.Duas velhas senhoras, discretamente, olhavam para o pau semi-duro do mendigo. Na ardidura das carnes, na revolução dos líquidos, na emergência das banhas imaculadas, a mais velha - e possivelmente mais sacana - soltou um suspirinho esquisito. Sem conseguir disfarçar adequadamente, ela grudou os olhos na genitália exposta e inchada, no talo balançante e solto, no corpo pequeno e magro de músculos andróginos. Pensou e lambeu os beiços diante daquela massa, despejada na sua cama com lençóis bem lavados, alvejados e cheirosos. E o contraste era fedido, decomposto. Delirou por dentro, enquanto virtualmente sugava aquele pau semi-duro com a devoção e liturgia que sugere o ato. Por fim, pensou com seus dedos apertados: há quanto tempo não fazia coisas com um corpo como aquele?
E era o seu sonho instantâneo: o mendigo entoava seu mantra, meio sem saber o que estava acontecendo, o seu la-la-láááááááá furioso que fazia o corpo da senhora tremer diante do calor daquelas horas. E a velha se imaginava dando biscoitos finos e banhando com leite e passando a língua na pele grossa corroída pelo sol. E o mendigo a retorcer os olhos enquanto era sugado com tamanha gula.
La-la-lááááááá, vai chupar meu pau. *foto de Ingar Krauss
Breve nota
estou perdido em um hiato. Tudo que posso dizer é que volto em breve, tão breve quanto possível. O quarto está sendo repaginado... O dono andando por várias estradas inesperadas.
abraços!
Cotidiano -1

Quando a gente perde, é inevitável essa sensação de que o engano anda pendurado nos nossos ombros e está a rir da nossa cara. Afinal, ninguém gosta de ver o indicador alheio balançando alternadamente de um lado para o outro.
NÃO. E os casacos ficam estranhamente mais apertados nesses dias.
Mas, o que sobra depois de um banquete? Se a fartura era tanta e os restos ainda são virtuosos. Suculentos. No meu caso, basicamente, tomar um porre de mim mesmo, essa água-ardente que enjoa o estômago. Peço ao tempo me esqueça num canto qualquer enquanto escorrego num compasso lento. O dono do bar sabe a razão de eu estar ali. É comercialmente solidário com a minha dor. É cúmplice. Quero viver a angústia deste personagem que jaz no canto deste bar. As luzes são cúmplices. O céu negro e carregado é cúmplice. A mulher excessivamente maquiada e que fuma um cigarro atrás do outro, alternando doses de Campari em copo alto com muito gelo, é cúmplice. O batom vermelho, contornando os lábios finos lhe dá um ar estranho. Ares de cobra. E aquele rosto quando sair pela rua será salpicado pelos pingos da chuva que certamente cairá daqui a pouco. A máscara pálida se dissolverá, ela vai chegar no apartamento quarto-sala para fazer um café amargo e reconhecer o fato de que novamente foi deixada de lado. E vai sonhar com amanhã. Mesmo lugar, mesma hora, mesma máscara. Essas circunstâncias me fazem cúmplice do meu personagem. Sou impelido a deixar meus dedos amarrados até que outra coisa aconteça. Até o fim.
Sei da tarefa inevitável de sovar a massa com cuidado, misturar os mesmos elementos numa medida anotada, decorada. Todos os destinos caminham nessa direção. De forma mecânica, letárgica, estirarei sob a mesa a minha parte nesse todo em unidades menores do meu eu: frações simétricas, uníssonas. Mas isso é amanhã. Ou depois, ou quando for preciso...
Especificamente hoje a cidade tem umas cores diferentes. O caminho está diferente. As plantas no corredor estão diferentes. Até o peixe no aquário está diferente.
Não é de se estranhar que eu sinta algum conforto nisso. Débil, reconheço.
Distante, eu acompanho Dona Estultícia.Foto: Laurie Simmons
A tatuagem inexistente

Ao contrário do que esta cena determina, isto é, abandono e ausência, e dos gritos do meu estômago em movimentos loucos, reconheço que me sinto estranhamente confortável. São lágrimas doces estas que chegam aos meus lábios. Difícil explicar o limite entre a frustração do porvir e a consciência implícita de que seriam necessárias tantas virtudes que nem sei se posso te oferecer. Não por falta de merecimento da tua parte, antes, por egoísmo. No posfácio dessa história, desse ultimo capítulo inacabado, no mesmo momento em que ficaste sozinha neste quarto por umas poucas horas, também te escrevi e, como o destino escolheu, estas linhas jazem repousadas no bolso e as rosas vermelhas desbotam sobre a mesa. É uma carta, ou melhor, um bilhete não lido por você e, a essa altura, um fóssil da nossa breve história de amor. Mesmo assim:
Buenos Aires, 23 de outubro.
Estamos nós dois ingenuamente perdidos nesta cidade. Aqui todos falam de um jeito diferente e pensam o mundo com outros sentidos. O táxi tem outra cor, o ritmo tem outro compasso. Tango. De alguma forma, isto nos aperta mais ainda um ao outro. Nos acolhemos ao colo alheio alternando o tempo de ser dono e gato.
Devo admitir que me comove o teu jeito, para mim doce e, ao mesmo tempo, aos outros recheado de amarguras e vigor. Não tenho explicação clara para isso. Se tivesse, é bem provável que o guardasse para eternamente.
Toda essa nossa história suspende a minha admirável estabilidade, vasculha minhas gavetas, armários e prateleiras. E me vejo anotando novas palavras para você e fazendo cálculos para novas rotas. Desde pequeno sou assim: planejo. Como se para mim não fosse suficiente apenas sonhar, mas sempre necessário rascunhar mapas, manipular fórmulas, articular probabilidades e, principalmente, preencher as folhas em branco com meus delírios articulados. Foi tão difícil aprender a não desejar os sonhos! Custou-me anos de inexplicável busca.
Estou muito atento a tudo isso e, ainda que meus sentidos cocem de forma acelerada, controlo. É uma lição: posso controlar, mas não posso elimina-los. Estar com você é a prova de que eu não estou curado das minhas melhores doenças. Estar com você é o reconhecimento da minha incapacidade de fechar os olhos à beleza que explode no meu peito. Estar com você é ainda querer o delírio.
Entrego-te minha confidência, esta carta acompanhada de dois capuccinos e água com gás, para dizer que não tenho medo dessa nossa expedição. Já não posso mais resistir ao teu canto mágico e, se você me levar ao fundo deste oceano, verás que sou apenas sorrisos e que te seguro firme pelas mãos. Escolhi o mesmo lugar de ontem - quando contamos mais coisas sobre a vida - para te dedicar esse meu desejo de usar um pedaço dos novos dias juntos. Espero que isso te provoque sentimentos bons e uma vontade imensa de te acomodares no meu colo. Ronronando....