Duas notas
“Não reconheço. Não desconheço. Simplesmente assim, na crueza da palavra ríspida, cuspida e praguejada, a vulgaridade viril do meu egoísmo, deste ensimesmado universo do meu quarto, sou um déspota cretino. Por essas bandas não há democracia nenhuma. Nem juiz, jurado, platéia. Não há tribunal. E quero assumir para mim o rigor e a potência dessa natureza, onde debruçarei minhas maldições diárias”.Intervenção 1.Um mendigo cuspiu nas pessoas que passavam perto dele. Simples assim, chegava de fininho e cuspia nos outros. Puxava um catarro das grotas dos pulmões e expelia. Podia ficar sentado nas calçadas e, como tantos outros, permanecer prostrado com cara de galinha em dia de domingo. Em vez disso, assustava e cuspia as pessoas que passavam apressadas depois do almoço. De tempos em tempos tirava o pau para fora das calças frouxas e mijava em torno de si mesmo. E ria um riso franco, delirante, riso de louco, e louco deve mesmo é achar graça dessa porra toda. Eu fiquei com vontade de rir também. Até deu vontade de tirar o pau para fora e mijar naquela gente que passava. Mas, fiquei com medo de, afinal, andar louco como o mendigo.
O diabrete estava em dia de juízo final, cantando com a boca aberta, desdentada e podre, um la-la-lááááááá absurdo.
la-la-lááááááá, vai cortar meu pau. la-la-lááááááá, vai chupar meu pau.Aos que esboçaram uma reação indignada ele simplesmente dava as costas. E seguia rapido para não ser pego. O seu olhar não tinha um alvo específico e, quando eventualmente se deparou com um outro olhar, o meu, atravessou-me como se enxergasse do outro lado.
Intervenção 2.Duas velhas senhoras, discretamente, olhavam para o pau semi-duro do mendigo. Na ardidura das carnes, na revolução dos líquidos, na emergência das banhas imaculadas, a mais velha - e possivelmente mais sacana - soltou um suspirinho esquisito. Sem conseguir disfarçar adequadamente, ela grudou os olhos na genitália exposta e inchada, no talo balançante e solto, no corpo pequeno e magro de músculos andróginos. Pensou e lambeu os beiços diante daquela massa, despejada na sua cama com lençóis bem lavados, alvejados e cheirosos. E o contraste era fedido, decomposto. Delirou por dentro, enquanto virtualmente sugava aquele pau semi-duro com a devoção e liturgia que sugere o ato. Por fim, pensou com seus dedos apertados: há quanto tempo não fazia coisas com um corpo como aquele?
E era o seu sonho instantâneo: o mendigo entoava seu mantra, meio sem saber o que estava acontecendo, o seu la-la-láááááááá furioso que fazia o corpo da senhora tremer diante do calor daquelas horas. E a velha se imaginava dando biscoitos finos e banhando com leite e passando a língua na pele grossa corroída pelo sol. E o mendigo a retorcer os olhos enquanto era sugado com tamanha gula.
La-la-lááááááá, vai chupar meu pau. *foto de Ingar Krauss