QuartoInteiro
sexta-feira, novembro 25, 2005
  A carta que eu nunca te escrevi


:: Introdução clichê

Correr pela avenida Liberdade, ou pela rua do Alecrim, tem sido um ato de libertação. Lisboa está fria e penso em como esse frio combina com a tua pele branquinha. Engraçado, gosto ainda mais de você no frio (se é que isso é possível). Desde que parti (e dissemos que era para sempre) não consigo deixar de pensar um minuto sequer em você. Admito que sou estúpido e que, de alguma forma, isso faz mal a nós dois. Ainda assim, esses dias escrevi essa carta enquanto esperava alguém. É um ensaio de carta, afinal, não me dei ao trabalho de revisar. Não, não é de amor. Ou é? Não sei. Por isso mesmo é que se chama "A carta que eu nunca te escrevi". Agora vou nessa que a noite vai ser fria e mais tarde vou comer caldo verde e beber vinho tinto.


:: A carta propriamente dita

Nenhum de nós tem mais coragem para “ser” do outro. O jogo é sujo mesmo e as pedras são colocadas nesse tabuleiro para confundir as mentes. Criam limo. Somos cotidianamente o “nada ao lado”, flores decorativas, música de fundo, beijos sem olhares. Prazeres que já perderam a graça e que ainda gozam por estímulo. Nenhum dos dois tem mais vontade/possibilidade de ser ao outro. Conjugada sem vontade, ao lado, a mão escorregadia procura o próprio bolso. Eu minto e me perco.

Corremos para lugares distantes e afirmamos sempre, sempre, que a vista, a tua vista, daqui de cima é mais bonita. Eu tenho umas palavras reprimidas que já estão gastas. Tenho me reprimido também, sabe? Como sou o algoz da minha auto-biografia, sou a foto errada no teu álbum, a foto de dois sorrisos abraçados que nunca residiu no teu porta-retrato, a sensação de que os teus melhores foram os outros: os mais amenos, os mais tranqüilos, os mais exatos, os mais teus.

No tempo de jogar gentilezas ao destino, o tempo certo - se é que existe esse tempo -, eu simplesmente deixei passar. E produzi zumbis. E vamos, assim, nos matando cada vez mais aos pouquinhos. Por que não conseguimos nos matar de vez? Morte súbita. E nem posso te dar certeza de quando esse corpo morrerá? Condenados, nossos momentos de melhores sorrisos, de melhores belezas, de melhores carinhos para quem são?

Aos outros, infelizmente. E ao que fica resta suportar a hora inútil, a hora escorregadia de tédio do mundo, a hora que estamos entre o nada e o fim. Ao outro resta sempre ser o meio, a transição, a ausência remediada, o conflito sem solução, o estar ausente. Nessa pedra acomodamos o real sentimento, grosso, denso, finito. Sim, é triste. Por que eu serei o que fica. Contraditoriamente. Afinal, a tristeza é a metade que coube para mim. É o sorriso recebido com ressalvas, o sorriso que tem gosto dos piores: piedade, resignação, tolerância, comodismo. O sorriso de (des)confiança . Não há prazer sem liberdade e não há prazer com verdade demais.

Eu quero mesmo é abandonar a minha verdade numa curva qualquer. Eu procurei em todos os cantos o “nem sei”, o inominável, o indivisível, o inegável. Uma estupidez. Procurei em outras aquilo que você me fez desejar e não quis me dar. Mas, por enquanto, a negação sempre volta com teu nome. Sempre.

*foto: Cristina Garcia Romero
 
Comentários:
Lindo! Lindo!
A la Clarice Lispector: "Que retrato de corpo inteiro!"
Beijo...
 
Descobri este Blog por acaso. Mas gostei das palavras aqui impressas...
Voltarei

Abraço e bom fim de semana :)
 
Abrir a porta. Silêncios de entrar. Reconhecimentos.
 
eu sei
 
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