"Lerás porém algum diaMeus versos d'alma arrancados,D'amargo pranto banhados,Com sangue escritos; — e entãoConfio que te comovas,Que a minha dor te apiadeQue chores, não de saudade,Nem de amor, — de compaixão." (Gonçalves Dias, Ainda uma vez - Adeus)Desde ontem, quando despejasse para o mundo tuas palavras e deste vários nomes e adjetivos para tudo fiquei com uma sensação de vazio fulminante. Hoje o dia está tão cinzento, chuvoso e frio. Passei o tempo todo em casa. Da minha mesa - que fica bem perto da janela - escrevo essas linhas para confessar: pensei em cravar nas tuas costas um punhal de exata medida e sufocar-te com algumas de minhas ânsias para mostrar que eu também sou capaz gritar. Conseguiria? Duvido. Tão pouco verdadeiro era esse intuito que estancou agora, neste exato momento, quando alguém cruza a rua correndo da chuva lá fora. Anônimo entre os guarda-chuvas. Eu ainda estou na mesma mesa e olho pela janela. Desde ontem. Uma menina de casaco amarelo e sobrinha transparente espera com um sorriso o anônimo. Que metafísica é essa submetemos nosso mundo para justificar os braços abertos e sorrisos que esperam do outro lado da rua?
Este quarto abre algumas janelas para
Dona Estultícia.