o jogo
Ao dobrar uma esquina rompemos com um número imenso de possibilidades e, curiosamente, abrimos outros milhões de possibilidades na próxima quadra. Sucessivamente, criamos inconscientemente eventos aleatórios que nascem e morrem em unidades não mensuráveis de tempo. O desafio é separar num número tão vasto de possibilidades à verdade que se estabelece no nosso desejo de permanência. O desafio humano de “experienciar” corre perigo. Uma verdade basilar, uma construção de fatos e pessoas, pré-concebidos como um muro que se ergue ao redor do nosso eu. E o ato diário de descartar entre a imensa quantidade de lixo, eventos fúteis e experiências sem valor, é uma virtude que traz em si um peso.
Por outro lado, no horizonte dessas trivialidades, do banal exposto, uma parte do “eu” morre submersa no “plano perfeito”. No ajuizamento das coisas de forma simétrica, na construção do maravilhoso e utópico futuro cartesiano, as margens de erro que dão cores novas à vida são cortadas. Todos nós elaboramos planos perfeitos para a vida e justamente por causa dele que defrontamos com grandes fracassos, o inevitável fracasso original de um plano perfeito. Nesse balizamento “justo” subestimamos o defeito necessário e que nos faz temer qualquer pequena dor. Corremos para as águas calmas da ilusão. O muro está firme. O muro represa em si as águas calmas que, paradas, proliferam as bactérias da mentira.
No quebra-cabeça, a maioria das peças não se encaixa. No jogo é a sobreposição de vazios, articulações de ausências e sabotagens estranhas e raramente nos permite uma visão clara. Trapaceamos a nós mesmos. Mas, quem sabe, o segredo seja viver dentro da imperfeição e negociar um mundo menos hermético para aliviar o peso de cada jogada?