“Como suportar em mim esse estranho?”
Todos os dias ele me cobra uma coerência e não tenho uma vaga impressão do que se trata. Sigo na ignorância e ponho um sorriso enganador no rosto. Dou as costas às anotações na agenda. Todos os afazeres me cansam. Minha única vontade é contar histórias, histórias sem nexo, histórias em branco em uma página com todos os “eus” que existirão apenas para os outros, a não ser na cabeça dos outros. Justamente, o que faço é surripiar as idéias alheias.
Dentro de mim, sou vago, oco. Mesmo que o outro, o estranho, insista em tentar me mostrar coisas, apresentar visões, buscar sentidos, sou oco. Apenas escuto tudo sem nenhuma responsabilidade e, depois, esqueço. Tudo o que guardo são coisas desnecessárias. Não venham me dizer do que eu preciso. Não digam o que posso, pois não tenho o menor compromisso comigo mesmo. Quero sentar na minha poltrona e deixar que minhas mãos inquietas se deixem levar por um espírito qualquer. Minha cabeça precisa estar totalmente vazia para preenche-la com flores num céu lilás.
São minhas estas flores. É meu este céu. Não quero debater sobre eles. Não quero nada além de aliviar a necessidade para sossegar minhas mãos. Só zelo de verdade pelas minhas mãos. O resto é teoria. Não quero uma explicação acadêmica para a minha inquietação. Não quero um adjetivo para sustentar meu espírito. Não me interessam psicanalistas, pastores, líderes comunitários, os empresários bem-sucedidos.
E o estranho insiste em achar que percebe mais do que pode.
Está em minha natureza flertar com espaços em branco. Não tenho conhecimento real sobre nada, só sei que preciso estar na minha poltrona e permanecer com as mãos para o ar. Sei disso como o leão sabe cravar as unhas na presa. Sei que meu real sentido é esperar o abstrato de olhos abertos. Vejo na senhora da esquina uma outra mulher. E esta mulher é apenas uma das mulheres que contém a senhora da esquina. A maioria delas será enterrada por teorias e idéias que nunca tiveram a ver com a senhora da esquina. Mas ela nunca saberá. Boa parte dela está morta.
Preciso estar livre de conceitos. Preciso jogar no lixo todos os valores alheios. Riscar do meu livro as opiniões do estranho e defrontar minhas demências sem sofrimento. Até hoje sofri muito por causa desse estranho. Ouvi demais seus bons conselhos e, mesmo sem lhe dar atenção, percebo o quanto ele é cruel. É ele o sujeito bem vestido, justamente aquele homem bem-vestido que esconde no bolso do paletó uma presa podre. Um cadáver que jaz mole no forro de seda de seu terno alinhado, um ser cujos ossos foram estraçalhados nas garras devidamente ocultas do estranho.
Demoro a perceber, mas tenho a impressão que sou eu quem apodrece neste bolso sem saber se serei um dia devorado. E o estranho está sempre comigo: desmaterializando-me. E sinto uma familiaridade absurda nos seus olhos.
E aqui estou morto (mas confortavelmente instalado) no bolso do estranho com as mãos coçando.
Alimentando-me do ócio e decompondo-me em ignorância.