Mini-dicionário das coisas: liberdade
Onde tu estavas quando precisei? Não sei se lembras (e nesse caso refresco as nossas mentes) que, no intervalo de um longo tempo dispensável, permaneci imóvel ainda que tenso. Aguardei apenas um sinal – um sinal vulgar - uma coisa pouca, uma maldita linha que cortasse por um momento a trajetória óbvia e, assim, na tua presença, eu justificaria certas coisas. E nada! As páginas do discurso pareceram estranhamente sem sentido. Eu falei sozinho para um bando de surdos.
Onde estavas quando senti medo? Talvez, do ponto-de-vista mais franco, somente a tua ausência é que te faz ser real. É preciso te procurar na certeza de que não estarás lá? É preciso te sentir, eu sinto, mas se tudo é um teste, ou melhor, uma simulação onde as questões (respondidas ou não) farão que voltemos ao início, o que devo fazer? Merecer-te é anular-te. Revelar-te é auto-engano. Não existes na consciência, mas como saberei pronunciar o teu nome? Estou condenado a uma vaga impressão. Uma noção da tua presença. A sempre estar a uns poucos milímetros de te alcançar com a mão.
Onde estavas quando quis te mostrar aos outros? Sim, na minha cabeça foi preciso que afirmar em praça pública. Contudo, exiges solidão e ofereces imanência. Ergui meu castelo no teu solo volátil. E todo dia, todo santo dia, recolho meus instrumentos com um punhado de areia e volto a minha tarefa fundamental.
Sim, te quero loucamente e, ainda que breve, teu suspiro é meu mais belo sopro de vida.