Mini-dicionário das coisas: afeto
Deixou o apartamento. Deixou tudo. E faz tempo que “tudo” era apenas umas coisas que se compra a prestação. Coisas que se deixam de um momento para outro, coisas que perdem em si mesmas a cor, o brilho, o dicionário. Coisas que vendemos por um preço maior que pagamos antes. De certa forma, é onde se fixou o acúmulo dos tempos, como os corais no fundo do oceano: vivos e imóveis. Assim foi fácil partir.
Lá fora explodiam bombas; as cotações da bolsa oscilavam artificiais como sempre, especulativas bem como é o jogo do capital, o faz-de-conta do dinheiro que vai pra lá e pra cá de acordo com a brisa (inventada); a temperatura global aumentando e os alarmes do planeta eram disparados (as focas árticas estão sufocando!); as religiões entravam em colapso total (e nem rezar se pode mais!); pobreza de um lado e a agonia por viver o máximo possível do outro (e nós?). Os jornais, tv, rádio, internet, tudo isso era um grande porre cotidiano.
Os dias passando e a solidão percebia-se com um toque. Era estranha. Uma carência de dizer umas palavras para outro. A carência física de apontar para um lugar e saber que alguém vai direcionar seu olhar para o mesmo lado; a carência de dizer sim, não, talvez. Sentada na poltrona do escritório digitando relatórios e, eventualmente, deixando o olhar escorrer pela janela, via o mundo todo lá fora com os olhos miúdos. Como todo mundo, pensava que havia tanto para ser visto e tanto para ser dividido, afinal, ver uma coisa sozinho é bom, mas dividir uma experiência é melhor. E pudera pensar na possibilidade de dividir assim, apenas um olhar, por exemplo. E depois ir para casa. Evitando a matemática, a economia dos afazeres, a economia das atitudes, a contabilidade dos abraços. Seu novo aprendizado: entender que certos valores não precisam ser medidos.
Talvez a saída fosse simples: transigir mais, entender mais, deixar um espaço maior na poltrona. Por outro lado, talvez, não houvesse saída.