Revolução
Os dentinhos fininhos se agruparam naquela carne tenra. E são pontiagudos, minúsculos seres que rasgam pedacinhos insignificantes de carne. Mini-fatias daquele corpo suntuoso, adiposo, obeso, rechonchudo... cada pedacinho, de tão pequeno, não deixava uma gota de sangue, só um borrão-aquelado na tela branca. Aos milhares, os minúsculos dentinhos gananciosamente penetravam dentro da carne, atravessando tecidos, rompendo nervos e vasos. Expostas, pequenas vesículas dançavam soltas na intimidade dos buraquinhos abertos.
O corpo, intelectual, imerso em sua concha de praticidades, não dava bola. O cérebro não tem tempo para essas excentricidades. E os dentinhos sem-estômago apenas invadiram o corpo para se exercitar naquela superfície esticada, lisa, branquinha: o paraíso em forma táctil. Entretinham-se em mastigar, mastigar, mastigar. Essa era sua vida:mastigar. Não tinham outra função. Era mastigar e morrer.
Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, era doce a vida para os dentinhos. Extasiados, degustavam o fígado - delgado e vermelho. E o corpo só deles, o templo de açúcar. Rins, vísceras e coração (este por último para manter o sangue quente e circulando).
O cérebro sobrevive intacto. O consideram nojento e inútil, branco e azedo. Deixavam-no apodrecer, esponjoso e gasto, num corpo devidamente vazio. Restos de gordura, osso e pele. Exaustos, obesos e sem função, aos poucos, os dentinhos morriam celebrando o cadáver deposto.