QuartoInteiro
segunda-feira, setembro 11, 2006
  Liberdade
Cansa mesmo. Esgota. A corda vai esticando de tal forma que, finda a força exercida, terminará com outro tamanho. Nunca mais voltará a ser essencialmente o que era. Toda sua capacidade submetida à prova. Não será a mesma. Definitivamente. Nem a corda, nem os braços.
 
sexta-feira, setembro 08, 2006
  Revolução
Os dentinhos fininhos se agruparam naquela carne tenra. E são pontiagudos, minúsculos seres que rasgam pedacinhos insignificantes de carne. Mini-fatias daquele corpo suntuoso, adiposo, obeso, rechonchudo... cada pedacinho, de tão pequeno, não deixava uma gota de sangue, só um borrão-aquelado na tela branca. Aos milhares, os minúsculos dentinhos gananciosamente penetravam dentro da carne, atravessando tecidos, rompendo nervos e vasos. Expostas, pequenas vesículas dançavam soltas na intimidade dos buraquinhos abertos.

O corpo, intelectual, imerso em sua concha de praticidades, não dava bola. O cérebro não tem tempo para essas excentricidades. E os dentinhos sem-estômago apenas invadiram o corpo para se exercitar naquela superfície esticada, lisa, branquinha: o paraíso em forma táctil. Entretinham-se em mastigar, mastigar, mastigar. Essa era sua vida:mastigar. Não tinham outra função. Era mastigar e morrer.

Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, era doce a vida para os dentinhos. Extasiados, degustavam o fígado - delgado e vermelho. E o corpo só deles, o templo de açúcar. Rins, vísceras e coração (este por último para manter o sangue quente e circulando).

O cérebro sobrevive intacto. O consideram nojento e inútil, branco e azedo. Deixavam-no apodrecer, esponjoso e gasto, num corpo devidamente vazio. Restos de gordura, osso e pele. Exaustos, obesos e sem função, aos poucos, os dentinhos morriam celebrando o cadáver deposto.
 
  Exercício 577
Sobre quem executa, acerta e é cheio de méritos. Voa e planeja.
Admito, sinto brotar em mim uma certa flatulência
Mas, não deixo de considerar que pode ser inveja.

(para o poeta Carpinejar)
 
  exercício 576
preciso de um objeto.
dê-me um ícone, um palco, um pano. Um solavanco. Um engano.
Eu passeio o tempo todo no lago do não.
Não sou. Não fiz. Não tenho.

incomoda este sentido ou a ausência percebida dele: eternamente configurando o espaço do vazio. E tudo tão alma em mim. E é tudo tão externo na arte.

Traço uma linha. É simples. óbvio.
Tudo que eu tinha. Simples assim.
me convinha.
eu me contia.

Uma nota... uma nota é uma ópera. Dó x 30 compassos. 5/8. variações em dó. Dó. Ciclos de quintas. Ah, agora sim. Ciclos de quinta em fuga.... para voltar ao dó. Sempre. Monogâmico.

cuspe azul numa parede branca.
A idéia era simplesmente essa.... traduzir o cuspe. O cuspe azul.
E a parede.
E o lençol? Quem disse que tinha um lençol nesta história?

Tudo isso é o que?
E esses ciclos? eu exponho: dó medíocre. Em fuga.
 

Arquivos
agosto 2005 / setembro 2005 / outubro 2005 / novembro 2005 / dezembro 2005 / janeiro 2006 / fevereiro 2006 / março 2006 / abril 2006 / maio 2006 / junho 2006 / agosto 2006 / setembro 2006 / outubro 2006 / novembro 2006 / dezembro 2006 / janeiro 2007 /


Powered by Blogger

Assinar
Comentários [Atom]