Entre cartelas de cores...
Num cenário imaginado - claro que é em prosa - o quarto que a minha imaginação visita é o quintal para um sonho bonito. Estamos sentados no alpendre da casa de madeira que fica bem lá no fim do mundo e sentimos conforto no velho banco de madeira, cobertos por uma manta de lã verde que foi do meu avô (diz ele que sobreviveu a uma guerra). A brisa é gelada no fim da tarde, nos esquentamos em abraços. Intimamente abraçados: intrínsecos. O céu com sua paleta de tons laranjas nos traduz uma felicidade desconhecida. Se o mundo perder todo o sentido e escorrer languidamente por uma semântica qualquer, nossas duas mãos juntas valerão as últimas palavras: felizes.
Tempos atrás, o vô José acordava bem cedo - de madrugada ainda - e preparava o chimarrão. Ficávamos próximos do fogão à lenha e ele dizia umas coisas que nos deixava parvos. “O amor de verdade é a capacidade de perceber detalhes juntos, como se fossem únicos olhos em duas cabeças. É muito importante as cabeças serem independentes, mas os olhos mirarem juntos”. Todos diziam que o vô era um lunático bem instalado no cotidiano com as suas frases esquisitas e um romantismo utópico: Vida após a morte. Morte após a vida.
O sol escorrega. Mais um dia cotidianamente inesquecível. Sem nos darmos conta vivemos assim. à margem esculpindo poesias com este material tão básico. Acordar, dormir, beijar, comer, fazer amor...Depois, a noite espalha seu negro mistério por todo os lados. Nos escondemos no calor alheio, nos seres exóticos noturnos que nos vasculham embaixo das cobertas. Cuidaremos destas histórias fantásticas para contar um pro o outro até que os olhos pesados se fechem misturados... entre realidade e sonho numa cartela de cores.