sem significante
Um dia perdi meu pau. Isso mesmo: perdi o pau. Dito assim, até parece simples. Mas não foi. Pra ser sincero, não foi uma coisa que eu possa definir exatamente. Implicou uma perda estranha e inédita. Um pau não cai simplesmente e pronto. Mas, muito melhor não tratar do mérito da queda. O fato é que fiquei sem. E não restou um buraco, um proveitoso buraco que pudesse ser de alguma forma – ainda que grostesca - uma pseudo-vagina. Não. Ficou apenas um arremedo estranho, difícil de explicar anatomicamente, cuja finalidade se resumia a um canal para dispensar líquidos. De uma maneira bem prática, fiquei liso. Um olhar desatento poderia considerar que abaixo do meu ventre, entre a minhas pernas, escondia-se algo semelhante a uma estrutura feminina. Não era verdade. Era vazio. E o vazio não incomodava, doía ou era feio.
Toda noite eu sonho com meu falo. Pendurado, duro a escorrer líquidos no meio da madrugada. Durante muito tempo visitei no inconsciente a antiga dificuldade de mijar no vaso, tonto entre sonhos eróticos e frugais. pulsátil e latente. Por vezes esfreguei o vazio no colchão de molas em busca de um resultado indescritível. Ao acordar me dava conta do nada que substituíra meu órgão e, ao mesmo tempo, a certeza de para sempre ele permaneceria de alguma forma ativo.
Com a perda do significante pensei no sentido exato da minha existência masculina. Eu não era mais um homem do ponto-de-vista reconhecível, táctil, no sentido literal, no sentido do macho que cobre a fêmea e perpetua a espécie. Eu era um híbrido dispensável para a existência do mundo, exceto a minha.
Uma vez que perdi o meu significante, precisei buscar significados. O significado de ser homem. Afinal, sem um pau, curiosamente, sentia a maior atração ainda pelas mulheres e me sentia mais homem do que nunca. Desejava-as de forma etérea, idílica, casta. Desejava-as na sutileza e nos detalhes já que agora percebia sem a urgência do macho acasalador. Desejava-as com seus temores, ampara-las nos meus braços e ver lágrimas escorrendo entre a maquiagem borrada. Vesti-las. alimenta-las. beijar-lhes os pés. Queria tudo mais. Escutar seus sonhos secretos, promíscuos, angelicais. Limpar-lhes a roupa, sentir seu cheiro íntimo, seu aroma libidinoso, beijar suas bocas e sentir morangos. Era sedução em escalas absurdas atônicas ecoando dentro do meu vazio.
Com a ausência do significante reconheci como nunca o milagre feminino. A vagina para mim era uma espécie de perfeição cósmica, lânguida e úmida. Mágico e, principalmente, desejado. Diga-se de passagem, a grande desvantagem do macho é a falta de percepção dos estímulos do outro, do jogo da sedução, em função da virilidade hormonal da ereção. Agora, eu flutuava num campo misterioso. Eu entendia como nunca a emoção-sexual da fêmea, seus sentidos entrelaçados a enroscarem múltiplas experiências até desabar no escorrimento primordial, o latejar do órgão sutil e belo. Sem pau eu precisei invadir-lhes secretamente a alma.
Uma espécie de Casanova sem significante. Não podia lhes chegar ao fim provável do prazer e, ao mesmo tempo, tinha de esgueirar-me por formas improvisadas. Ainda doíam em mim as ausências anatômicas. Eu era um hipnólogo, mas não um prestidigitador. Não podia reinventar fisicamente meu falo. O prazer de dar prazer a uma fêmea tinha unicamente a dimensão espiritual, uma dimensão de sonho. Sonhava com os antigo rituais. A ausência do falo me fez percorrer mentalmente todas as sensações antigas e, não raro, me emocionar. Secavam os meus lábios, os dentes cerravam, as mãos ficavam frias e as pernas tremiam. Revia o passado em momentos em slow-motion: resumiam agora um ritmo frenético nos meus batimentos; os segundos alquímicos da introdução, quando acomodava meu pênis alargando suavemente os músculos femininos. Delirante. Essa imagem agora rompe a alma e me deixa inebriado de sensações místicas. Era a minha carestia, minha comunhão espiritual. Minha religião.
Raras vezes destilei meus medos a ponto de buscar o contato físico com as mulheres. Em primeiro lugar, porque com a perda do meu falo, elas se tornaram entidades místicas. Endeusava-as com a boca cheia de saliva. Era como se pudesse engolir as lágrimas da Virgem com prazer pornográfico. Fui obrigado a desenvolver talentos especiais. As mulheres viraram o precioso gosto do vinho mais raro, um aroma do perfume mais raro e perfeito, o preenchimento afetivo mais visceral. Não tendo pau, entendi que a abertura feminina está longe de ser uma cavidade. É um portal mágico para um universo paralelo. Sem pau descobri que o falo feminino é mais poderoso do que nós, os machos, somo capazes de presumir. é trilha e caminho.
Não é verdade que meu pau não faça falta. Muitas vezes sinto no meio da noite sua ausência inflamada, ausência-presente, ausência-necessidade. E entrego estas faltas a uma volúpia ainda maior: ordinária, erótica, pornográfica. Uma angústia com nomes variados. Elas molham o meu deserto; esquentam meus sentidos; ressuscitam com sua magia feminina o elo entre o homem morto e o além do homem. E o vazio se torna pleno. Renasço.