QuartoInteiro
insólito
se você não entender a vida, ela simplesmente passa. assim, sem explicação, sem deixar recado, anotação. e, na soleira da porta, de repente o dia se acaba monotonamente, sem ruídos, sem desculpas.
nada de recados para o futuro, nada de anotar mundos e jogar seus desejos ao mar. isso não adianta.
se você não buscar perceber a vida, simplesmente sofre. pq a vida é dura mesmo, feito ponta de pedra, pontiaguda. Então, entre o balanço e a esquiva, aproveite para brindar as coisas que tens na mão e o fato de que o jogo ainda não acabou.
de resto... isto são apenas palavras. viva o quanto antes.
pausa...
estou em pausa para balanço. volto logo!
sem significante
Um dia perdi meu pau. Isso mesmo: perdi o pau. Dito assim, até parece simples. Mas não foi. Pra ser sincero, não foi uma coisa que eu possa definir exatamente. Implicou uma perda estranha e inédita. Um pau não cai simplesmente e pronto. Mas, muito melhor não tratar do mérito da queda. O fato é que fiquei sem. E não restou um buraco, um proveitoso buraco que pudesse ser de alguma forma – ainda que grostesca - uma pseudo-vagina. Não. Ficou apenas um arremedo estranho, difícil de explicar anatomicamente, cuja finalidade se resumia a um canal para dispensar líquidos. De uma maneira bem prática, fiquei liso. Um olhar desatento poderia considerar que abaixo do meu ventre, entre a minhas pernas, escondia-se algo semelhante a uma estrutura feminina. Não era verdade. Era vazio. E o vazio não incomodava, doía ou era feio.
Toda noite eu sonho com meu falo. Pendurado, duro a escorrer líquidos no meio da madrugada. Durante muito tempo visitei no inconsciente a antiga dificuldade de mijar no vaso, tonto entre sonhos eróticos e frugais. pulsátil e latente. Por vezes esfreguei o vazio no colchão de molas em busca de um resultado indescritível. Ao acordar me dava conta do nada que substituíra meu órgão e, ao mesmo tempo, a certeza de para sempre ele permaneceria de alguma forma ativo.
Com a perda do significante pensei no sentido exato da minha existência masculina. Eu não era mais um homem do ponto-de-vista reconhecível, táctil, no sentido literal, no sentido do macho que cobre a fêmea e perpetua a espécie. Eu era um híbrido dispensável para a existência do mundo, exceto a minha.
Uma vez que perdi o meu significante, precisei buscar significados. O significado de ser homem. Afinal, sem um pau, curiosamente, sentia a maior atração ainda pelas mulheres e me sentia mais homem do que nunca. Desejava-as de forma etérea, idílica, casta. Desejava-as na sutileza e nos detalhes já que agora percebia sem a urgência do macho acasalador. Desejava-as com seus temores, ampara-las nos meus braços e ver lágrimas escorrendo entre a maquiagem borrada. Vesti-las. alimenta-las. beijar-lhes os pés. Queria tudo mais. Escutar seus sonhos secretos, promíscuos, angelicais. Limpar-lhes a roupa, sentir seu cheiro íntimo, seu aroma libidinoso, beijar suas bocas e sentir morangos. Era sedução em escalas absurdas atônicas ecoando dentro do meu vazio.
Com a ausência do significante reconheci como nunca o milagre feminino. A vagina para mim era uma espécie de perfeição cósmica, lânguida e úmida. Mágico e, principalmente, desejado. Diga-se de passagem, a grande desvantagem do macho é a falta de percepção dos estímulos do outro, do jogo da sedução, em função da virilidade hormonal da ereção. Agora, eu flutuava num campo misterioso. Eu entendia como nunca a emoção-sexual da fêmea, seus sentidos entrelaçados a enroscarem múltiplas experiências até desabar no escorrimento primordial, o latejar do órgão sutil e belo. Sem pau eu precisei invadir-lhes secretamente a alma.
Uma espécie de Casanova sem significante. Não podia lhes chegar ao fim provável do prazer e, ao mesmo tempo, tinha de esgueirar-me por formas improvisadas. Ainda doíam em mim as ausências anatômicas. Eu era um hipnólogo, mas não um prestidigitador. Não podia reinventar fisicamente meu falo. O prazer de dar prazer a uma fêmea tinha unicamente a dimensão espiritual, uma dimensão de sonho. Sonhava com os antigo rituais. A ausência do falo me fez percorrer mentalmente todas as sensações antigas e, não raro, me emocionar. Secavam os meus lábios, os dentes cerravam, as mãos ficavam frias e as pernas tremiam. Revia o passado em momentos em slow-motion: resumiam agora um ritmo frenético nos meus batimentos; os segundos alquímicos da introdução, quando acomodava meu pênis alargando suavemente os músculos femininos. Delirante. Essa imagem agora rompe a alma e me deixa inebriado de sensações místicas. Era a minha carestia, minha comunhão espiritual. Minha religião.
Raras vezes destilei meus medos a ponto de buscar o contato físico com as mulheres. Em primeiro lugar, porque com a perda do meu falo, elas se tornaram entidades místicas. Endeusava-as com a boca cheia de saliva. Era como se pudesse engolir as lágrimas da Virgem com prazer pornográfico. Fui obrigado a desenvolver talentos especiais. As mulheres viraram o precioso gosto do vinho mais raro, um aroma do perfume mais raro e perfeito, o preenchimento afetivo mais visceral. Não tendo pau, entendi que a abertura feminina está longe de ser uma cavidade. É um portal mágico para um universo paralelo. Sem pau descobri que o falo feminino é mais poderoso do que nós, os machos, somo capazes de presumir. é trilha e caminho.
Não é verdade que meu pau não faça falta. Muitas vezes sinto no meio da noite sua ausência inflamada, ausência-presente, ausência-necessidade. E entrego estas faltas a uma volúpia ainda maior: ordinária, erótica, pornográfica. Uma angústia com nomes variados. Elas molham o meu deserto; esquentam meus sentidos; ressuscitam com sua magia feminina o elo entre o homem morto e o além do homem. E o vazio se torna pleno. Renasço.
Imagem
É tudo pose. Tudo fase. Neutro, positivo, negativo...Vai colocando neste carinho de supermercado essas nossas coisas. Rancho de inutilidades. Tudo pose, com direito a close, luneta e photoshop. Sobrarão as doses certas, as fotos, as palavras certas. Coloque no carrinho com cuidado: futilidades aqui, inutilidades no outro canto, fragilidades em cima. Nem nós agüentamos. Não durante tanto tempo e, ainda por cima, os pés incham nesses sapatos absurdamente elegantes. Ah, não importa não o esparadrapo no calcanhar! Não importa o suor das axilas, não. Ninguém vai arriscar chegar tão perto da gente com essa pose. Tudo pose, alguém tem uma fita crepe aí?
Estou começando a despencar, lentamente, depois do feito nem superbonder vai consertar esses cacos.
Rápido, afinal, não sei por quanto tempo suporto essa pose. Estou me sentindo estúpido. Aspirina? Não tem coisa mais forte aí? Ah, sim, é possível que eu precise dormir um mês depois desta cena. Tudo tem preço. Quarentena total. Enrolo para, quem sabe, alguém de fora apareça com alguma coisa útil.
Ei, meus pés estão me matando, sabe. Já te disse isso, não é mesmo?
Não tenho o que te dizer, tudo está perigosamente sem sentido e é por isso que sustento essa pose. Sinto a cal derretendo pelas minhas paredes. É tudo pose, amigo, retrate aí na sua câmera digital de 5.1 Megapixels. Retrate essa minha falsa sobriedade, pois amanhã vou estar sabe-se lá como. Pose, só hoje, ou enquanto eu não vomitar no carpete. É intencional, sim. Tudo pose intencional, nada aqui é natural. Fake ao quadrado. De propósito. Você se assusta com pouco, viu? Ingênuo, idiota ou as duas coisas?
Ei, esqueça essas coisas:
Sua cabeça...Suas idéias...Temporariamente, façamos de conta que está tudo certo, afinal, nossos estômagos estão vazios e podemos engolir muitos sapos por esses dias.
Silêncio, silêncio, tua voz me cansa. Eu sou o seu salvador e não posso ficar cansado, entende? Entende? Não me faça perder a paciência com você!
Se eu tenho um plano? Um plano para sairmos daqui? Claro que tenho, mas você precisa ter fé em mim. E agora? Você nunca soube de verdade o que é isso! E você quer sair daqui, não? Que conflito!!!!!!! não queria estar na tua pele agora.
Ah, você fará apenas o que eu mandar, entende bem isso? Se eu disser pra ficar parado, você fica. Se eu disser para você sair do escritório somente depois de todos, é isso que você fará. Eu mando e você obedece. Não estou te oferecendo opções. Quer dizer, apenas uma: aceite ou caia fora. A decisão é sua, irrevogável, inadiável. Tempo para pensar? Digamos que você pode respirar ou, quem sabe, fumar um maldito cigarro na área de fumantes. Mais nada.
As saídas, bem.... não estou aqui para comentar suas possibilidades. Além disso, se eu achasse realmente possível você ter outra saída, amigo, não seria tão arrogante, nem desperdiçaria meu precioso tempo com você. Não tens como conseguir coisa melhor do que estou te oferecendo. Agora, não pense que podes disfarçar e esconder coisas de mim. Não pode. Simples assim, depois de você aceitar o acordo, eu tomo a sua mente, as suas idéias mesquinhas, os seus sussurros, os seus complexos. Em troca dou a segurança que você sabe que precisa.
Não, não, não... ninguém precisa ficar sabendo disso. É uma coisa nossa e, no mais, não sinto grande coisa por isso, não me serve como, digamos, currículo. Você para mim é só mais um caso corriqueiro. Geralmente, na sua situação, você pouco importa aos outros.
Olha, não faria tantas perguntas se fosse você. Seu tempo está gastando e existem milhares de outros como você por aí. Mesmo que não pareça, tiveste sorte. Vá pensar um pouco, afinal, com estas minhas falas não encontrarás respostas, apenas uma regras óbvias.