Entre jogos e bocejos
Escuto o barulho da água escorrendo na pia. Depois, uma escovação prolongada, meticulosa. Toalhas, chuveiro, sapatos, louça.Ela me olha pelo espelho. Acordo. Enquanto se arruma, andando de cá pra lá com sua xícara,
ela se arrepia diante do espelho, tira a blusa e fica com as costas nuas.
Ela suspira uma agonia qualquer.
Ela tem agonias assim diante do guarda-roupa e seu silêncio às vezes me surpreende, às vezes incomoda, às vezes alivia.
Ela não me olha e é quase como se não tivesse olhos de vez em quando.
Ela pertence apenas a si mesma. Depois, liga o rádio e começa a comentar as notícias. É só agora que
eu começo a existir para
ela.
Eu não tenho mais paciência para notícias, ultimamente, não tenho espaço para mais informações.
Eu tenho nela a notícia que preciso: a salvação para a bomba atômica; o futuro que não teremos; a ração que me alimenta; a alta do dólar; o milagre do cotidiano.
Eu ando desligado e o torso dela, nu, tem uma poesia que não consigo escrever. Esse despertar me encanta e atordoa.
Eu tenho não tenho sonhos freqüentes com ela, mas eu acordo nela, dentro.
Eu fico pasmo.
Eu não tenho boca quando estou assim com ela e as palavras escorregam. Acabo dividido entre a conquista do mundo e uma contemplação egoísta, mesquinha. E, finalmente, em alguns momentos começo a acha-la fútil. No fundo, sei que
eu a invento.
Ela nem mesmo ela sabe.
Ela nem quer saber.
Ela tem uma superioridade qualquer tipicamente feminina, um zelo essencial por si mesma.
Ela tem ignorâncias ao meu respeito que a deixam confusa.
Ela é autofágica e dependente.
Ela sabe que depende de mim do mesmo modo que dependerá de outro depois de mim. E outro, e outro e mais outro. Mesmo assim
ela simula tranqüilidade e
eu me espalho em cacos pelo quarto.
Eu sou um filme pior, um drama piegas, água com açúcar, mexicano.
Ela é nouvelle vague, cinema noir. É tão fake quanto
eu, é verdade, mas
ela carrega esse elã pagão que absolve dos pecados carnais.
Vivemos numa luta constante. Inferno e céu. Dramas e citações. Abandonos e acolhimentos. Nunca menos que dois. Sempre divididos em desigualdades. Sempre com aparas e barro nas botas. Maus jogadores no pior sentido.
Mas é só com
ela que eu me sinto respirando. E ando com falta de ar.