A trilogia do Adeus - (parte 1)
"Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa seqüência de ações sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola. A. Camus, em O mito de Sísifo."Juntou as roupas rapidamente na mala e saiu. Ela correu por vários lugares, perdida, desmotivada, inútil. A semana foi de discussões absurdas, palavras atiradas com aspereza, acusações estúpidas e culpas que se amontoavam pelos cômodos da casa. Uma repetição dos últimos anos, intercalada por rompantes e tentativas para driblar as crises que surgiam por todos os lados.
Sentia diante de si uma culpa inominável, uma febre estranha diante da qual não sabia como se salvar sem uma atitude extrema. Em tudo aquilo ainda havia o sofrimento dele, os olhos tristes e furiosos, repletos de medo de seguir em frente. Não tinha mais como negar seu desejo por novos dias e a necessidade de sentir de um frescor cotidiano, como se precisasse reinventar uma nova primavera para sua vida. Mas também não podia culpá-lo pela dor, não podia culpá-lo pela mágoa. No máximo, sentir-se assim: com os olhos duros e a alma - ainda que negasse para si mesma - mais leve.
Caminhou com sua mala por horas e sentou-se numa praça. O sol estava generoso, ela perdida. Mas em seu coração os sentimentos estavam tão bem estabelecidos que, subitamente, deu-se conta que não lhe cabia mais nenhuma dor. Talvez diante dele, que agora era uma espécie de passado em movimento, ainda presenciasse um desconforto emocional. Só isso. Mais do que nunca estava preparada para buscar uma felicidade onde não havia mais lugar para ele.
Foi por isso voltou para casa. Encontrou-o praticamente igual: pesado. A tarde terminava ao longe, num dia frio e ensolarado. Os laranjas e púrpuras se sobrepunham e a noite negra se anunciava para logo. Das janelas das casas, as pessoas se preparavam para o fim daquele domingo quieto. Ele permanecia de meias e casaco, cabelos desgrenhados e os olhos vermelhos. Imóvel na sua poltrona.
Olhou-o com a firmeza de seus sentimentos e com a generosidade e respeito necessário para fazer com que outro simplesmente aceite os desígnios da vida.
Não, eu não te odeio. Não mesmo. Apenas não consigo mais.
Ele não falou nada. Tremia. Abraçou-a forte, intensamente. Suas lágrimas molharam a blusa dela. Depois, calçou os sapatos, vestiu o sobretudo e se foi.