QuartoInteiro
quarta-feira, março 08, 2006
  Truques e trapaças
"Esta moça deixaria tonto o próprio santo Tomás – comentou Oliveira.
Por que Santo Tomás? – perguntou a Maga. Será o idiota que sempre queria ver para acreditar?
Esse mesmo, minha querida – respondeu Oliveira, pensando que no fundo, a Maga tinha invocado o verdadeiro santo.Tinha a felicidade de poder acreditar sem ver, de poder formar um corpo com a duração, com o contínuo da vida. Tinha a felicidade de se encontrar dentro do quarto, de ter direito de cidadania em tudo o que tocava e em todos aqueles com quem convivia, peixe nadando no rio, folha na árvore, nuvem no céu, imagem no poema. Peixe, folha, nuvem, imagem: exatamente isso, a não ser que...." em O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar.


Dias ensolarados e frios deixam uma alegria confortável. São tempos para abrir a janela e sentir o contraste do azul perfeito e o cinza das fachadas; diversos cartazes colados no tapume da obra; o diálogo dos carros na avenida e, ao fundo, os diferentes verdes das árvores: uma coisa só. Coloco a água na chaleira e aproveito o vapor para aquecer a ponta dos dedos. Ali parado - esperando entre uma coisa e outra - penso na frase que me acompanha há dias: a felicidade é um truque. Certamente, pensar nisso é coisa de desocupado, tenho certeza, e isso reforça mais ainda minha vontade de pensar.

Diabos!!!!!!!

Fico enrolando mil maneiras de perceber uma coisa que, ao bem da verdade, oscila entre o simples, direto e mísero lugar-comum (quase uma banalização) e daí surge o dialogo com esta folha.

Nota importante – a) o corpo realmente se transforma mediante ao contentamento: corado, lustroso; b) as pessoas nos rodeiam ao ver nossos olhos brilhando com facilidade; c) o velho da banca de jornal puxa um assunto mais interessado; d) as mulheres se sentem bem acomodadas dentro de sorrisos.

É difícil para um ocioso convicto, cujo passatempo é inserir idéias ao cotidiano para viver das suas reflexões egoístas, aceitar estas coisas e, depois, concluir que realmente a partir de um truque pode estar a solução de inúmeros dilemas metafísicos. (Truque sempre me pareceu uma palavra baixa, rasteira, medíocre).

Mas, afinal, o que é esse truque?

Preciso de um certo ritual tal como tomar um café recém-passado na janela antes de escrever. Temperatura lá fora: 10 graus. O contraste do café quente com o ar frio é agradável. O Gato se enrosca no meu pé como se dissesse que quer entrar para esta história. É um gato alugado, possivelmente herança do antigo morador desse quarto e, conclusivamente, o dono deste espaço pedaço. Gordo, peludo e ordinário, para mim ele se chamará para sempre “Gato”. Assim, o dia que eu for embora não me sentirei tão mal. Tenho uma excelente memória associativa.

Eis que surge uma personagem:

sentado na poltrona do escritório, um homem olha a foto na mesa e depois para um ponto infinito na janela. Pensa nas próximas férias. No novo modelo de automóvel lançado exclusivamente pela internet. O prédio dos sonhos - piscina e varanda. Um colégio arborizado para o filho correr pelos gramados nos intervalos. Um amor de cabelos sedosos e longos dormindo espalhada pelo lençol vermelho.

Entre o sufoco e a acomodação no futuro do presente - nos interstícios da razão – será que temos algum truque disfarçado? Cairemos na hipótese de trapacear o real? É o truque? Naquilo que chamamos de objetivo, meta, sonho, ou, na verdade, a constatação de despertar: todo o passado se transforma efetivamente em ilusão.

No que pensará o homem sentado na cadeira?
 
Comentários:
'Propõe-se que a felicidade seja classificada como perturbação psiquiátrica e incluída em futuras edições dos manuais de diagnóstico especializados sob a nova designação de importante perturbação afetiva, do tipo agradável...'
 
Amo ler seus escritos. Sempre.
Beijos.
 
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