Eu revisited (notas dispersas para cafés)
Sentamos lado a lado no banco da praça. Cinco horas juntos, talvez mais. Aparentemente, nada tínhamos guardado dos últimos dias e daquela distância glacial que se impunha necessária ao esquecimento do recíproco, das palavras rudes, duras, sinistras. Esses foram dias em que o mundo se espatifava na nossa frente por qualquer “ai” expresso sem muito traquejo e qualquer cisco no olho era a prova definitiva para uma cegueira mortal.
Mas, de repente, tudo havia se dissipado de tal forma que, no meu íntimo, sobravam sensações contraditórias. E ficamos ali na sombra agradável, esperando que o tempo passasse e nos mantivesse juntos naquele existir mais do que confortável. Sentíamos o prazer límpido das flores, a nostalgia do futuro, o cheiro e o gosto conhecidos. Seguros naquele banco de uma segurança emocionante.
Mas, o silêncio que em princípio pareceu mágico aos poucos sufocava. Tenho medo desse medo que sinto, pensei. Já conheço esse caminho.
E, antes que eu seguisse nestas ilações, as entranhas abriram fogo e cuspiram palavras aprisionadas, as palavras de um outro: sofredor, angustiado, tenso. Eram as palavras de uma psiquê sufocada e carente. Desprenderam-se de mim sem destino certo e, curiosamente, viraram as provas para algo terrível. Atingiram o alvo mais errado possível e a eternidade do nosso momento, agora, se dissolvia como açúcar na água. Os tempos eram outros e, paradoxalmente, sempre, sempre os mesmos.
Armado, esperei o tapa recíproco que não veio. Em vez disso, um silêncio cristalino e a angustia de dois olhos desmotivados. As palavras foram diminuindo, diminuindo e, por fim, redundaram num sussurro e em lágrimas desastradas. O meu outro eu, infelizmente, existia. E era indesejado, desnecessário, sobressalente. E mesmo assim eu o queria, preciso dele, pensei.
Os olhos desmotivados me emprestaram sua alma e a sensação estranha agora era tudo que restava no jardim. Ainda não eram seis horas, certamente não.