As Cartas Lisboetas (5)
Tem vezes que eu esqueço como é ser eu. E, como ninguém, você era a melhor cura para a minha amnésia. A cura e danação. Quando me perco, fecho os olhos e sento num banco da praça, mas não qualquer banco, nem qualquer praça, mas a tua escolhida de sempre. E são nestas manhãs de sábado ensolaradas que busco olhares, os teus olhares possíveis, a nítida preferência por tons exóticos, coisas retrôs, cacos e velharias, caixinhas e maletas com passado duvidoso. Assim, aos poucos, vou me curando desta cegueira imaginária e restituo, sozinho, a presença que já não mais existe: o eu disperso no teu mundo. Uma caminhada, café amargo e passos sem palavras. Tenho falado tão pouco que, em determinados momentos, sinto que uma hora dessas simplesmente esquecerei como falar. O meu amigo angolano, o Príncipe Guido, estes dias me chamou e respondi com um pensamento. Ele insistiu e, novamente, as palavras que se formaram apenas na minha cabeça pareceram suficientes. Ele, amigo novo, recente, mas já tão parceiro, parece se preocupar com esses meus dilemas do coração. Diz que eu sou romântico demais, confuso demais e, por isso, fadado mesmo a escrever textos açucarados ao extremo. Também diz que ando infectado por histórias tristes, amores inacabados. “
Não há cura para você”, fica repetindo com seu sorriso enorme e branco, naquele português chiado de Angola.
Sem perceber, numa destas histórias, meu bom amigo limou de tal forma a minha fantasia que chegou a ser duro. Ao mesmo tempo, como fazem os amigos, ajudou a combater meus próprios enganos. Como se confessasse um delírio, afirmei que sonhava várias vezes com a imagem da holandesa ruiva e seus cabelos esvoaçantes. Disse-lhe que minha fantasia era justificada pelas marcas na parede, a história do mouro desaparecido e os passeios que ela fazia à Lisboa na vã tentativa de encontrar seu amante. E o príncipe Guido com uma cara séria, reprovadora, como ares de professor de história que reconhece o equívoco no ato. “
A tal ruiva não existe, caro amigo. Faz parte do folclore das invenções desta cidade. É tudo fantasia desta gente. Tais a ver? Este povo cria essas lendas e, veja, o Dom, mencionou, ao contar para mim a mesma história que contou para ti, que a tal mulher era loura, louríssima, de cabelos lisos? Pois, meu amigo, tudo isso é fruto da imaginação”.
Sem jeito, confuso, só dei um sorriso irônico. Não sabia como responder e dizer-lhe que aquelas palavras, obviamente tão cheias de razão, para mim carregavam uma amargura indefinida. Sei que, por vezes, acho necessário viver dentro de uma utopia. Ao dissipar a musa ruiva vários pedaços do mundo perderam seu sentido. Mas eu disfarço e sei que a lógica, depois de instaurada, é cicatriz eterna. Mesmo sem querer, não consegui conter esta dor.
Deixei o meu amigo sem explicar as razões e caminhei muito. Curiosamente acabei no topo da
Escadaria dos Suspiros. A noite já instalara seu véu negro e vaguei com a imagem da musa entre as estrelas. Dos seus cabelos eu via surgirem belas constelações, do seu rosto branco e triste, seus olhos evasivos, os universos em suspensão. E a brisa movimentava seus cachos e embalava as estrelas, deslocando temporariamente o universo em sentidos aleatórios, como se dançássemos uma valsa. Só eu e ela. A bela imagem da lua refletida no Tejo finalmente desvendava seu corpo e tudo me comovia incompreensivelmente. Ah, como é doce a fantasia quando embriaga nossos sonhos.
Como tudo que é belo nesse mundo é destruído por uma ordem prática, pelo sarcasmo do cotidiano e, muitas vezes, pela razão de um amigo dita a esmo, só carreguei em meu coração as palavras:
a ruiva não existe. Fiz da fantasia necessária as pessoas deste lugar a minha própria fantasia.
A bela e rara imagem se dissipou tão logo a razão surgiu na minha cabeça. Faz tempo que não me sinto tão solitário. Vazio.
**Danae, de Gustav Klimt