As Cartas Lisboetas (4)
"Só a verdade liberta".
Sou réu confesso, admito. Não valho a natureza cruel de certos pensamentos. No portifólio das minhas dores-de-cotovelo mais íntimas, nos umbrais da minha profusão de desgostos, invejas, ciúmes e sentimentos vis, sinto que esta confissão no anonimato é o remédio mais em conta. Por isso, as cartas, muitas vezes piegas e sem sentido, sem qualidade literária, são o resumo do que cabe na insignificante lida dos meus sentidos. Nesse confortável quarto, que é inteiro e eu não sei ser inteiro, só metades que, aí, eram a chave para desencadear minha ira contra as impossibilidades, as minhas impossibilidades, vislumbradas de forma tão generosa. Não, não tenho o meu perdão. No quarto inteiro duelo com o “eu mesmo”. Sempre confuso. Diante do espelho corro o risco de censurar as minhas verdades, trapacear e blefar, mentir, fingir. Mas fracasso.
Como réu confesso, admito que sinto inveja daqueles que “são”. Eu sou um cargueiro de projetos, potências, idéias. Vazio. Oco. Intoxicado pelo vento da potência, sou um cargueiro prestes a sucumbir em alto-mar para sempre e ter os restos anônimos na imensidão azul do Atlântico.
Sinto inveja daqueles que criam casa com jardins, escrevem livros, amam e tiram retratos. Meu coração quase explode diante da estabilidade de um cotidiano. Sou mau, admito. Sempre rasuro a página e tentando apagar o erro impresso em esferográfica com borracha branca. Cuspe e borracha branca para limpar as impressões erradas.
Enquanto vomito essas notas para você, vejo um casal conversando na mesa que está ao meu lado.
Tenho impressões variadas entre meu pensamentos e o diálogo que invado.
Ergo a cabeça para ouvir melhor.
Literalmente, me intrometo no assunto.
Mas, ao mesmo tempo, que posso fazer?
Assistir o ruído desses egos em transe.
Estou sentado há tempos nae anoto tudo para não perder os detalhes. O que faz um casal discutindo em pleno sábado ao cair da noite? E o que eu faço anotando tudo isso?
“
Então acabou”, disse o homem com aspecto triste. Não havia mais palavras, nada. O que restara das horas que, aparentemente dispensaram ali, era esse resumo real e seco. O céu tinha contrastes de vermelho e negro. E eu, egoísta, copiando tudo, tentando vez por outra observar os olhares e movimentos, surrupiando-lhes os dizeres.
“
Sim, é isso mesmo. Acabou, pois não quero essa vida para mim. Você para mim não serve, não desse jeito. Não serve e pronto”, e ela frisava o não, em
caixa alta, dito com a convicção que não precisa mais nada. A lucidez e a certeza da palavra que estoura os miolos do homem.
Meu bloco ficou cheio das palavras deles. Tinha impressão de encher um livro com anos de diálogos. Curiosamente, foram apenas estas as frases que consigo registrar nesse momento. Todo o resto se perdeu no vazio do meu cargueiro. Termino meu vinho e ainda há uma breve luz lá fora. Está frio. Sigo pela Av. Liberdade em busca do “comboio” sem saber exatamente em que ponto desembarcar.