As Cartas Lisboetas (3)
“Continuarei a rezar sem saber por que rezo. Que importa? A minha vida não estará mais à mercê dos acontecimentos, cada minuto vida terá um sentido indubitável do bem que sou capaz de infundir”.*Quando estamos longe de nossas coisas, do conforto do espaço definido, nos apegamos às gentilezas, simpatias, generosidades, ainda que medíocres, que aparecem pela frente. Faz parte deste processo de sobreviver em novas terras, criando vínculos aleatórios e, assim, enfrentar o destino com novas ações. Por exemplo, me apego ao conforto deste meu quarto; me apego as belas ruas estreitas e ao “elétrico” que deixa
ao pé da
Escadaria dos Suspiros; me apego à história da holandesa de cabelos vermelhos ondulados, deslizando pelo vento os seus murmúrios em direção ao Tejo e cujas marcas anualmente sangram a parede ao lado, nesta dedicação louca ao amante turco. São novos estes hábitos, que não estão contidos nas posturas pré-definidas diante do incidente A, por exemplo. Aliás, não existe mais incidente A. Entrei numa onda de improviso total.
A imprevisibilidade – o mundo que eu não controlo - é uma coisa que está me fazendo ver os espaços desprezados antes. Nesse canto menos formatado do “eu” desconhecido, esse sujeito mais livre das próprias convicções e memórias (obrigado a olhar para o lado, aceitar coisas que não aquelas às quais não havia possibilidade de transigir antes, não por relevância, mas por manias sem muito valor, tais como preguiça, impaciência, tédio) é que dou chance para coexistir com o que calhar. Mesmo a tua ausência - que eu trouxe junto na bagagem - é coisa que sei que todo o meu desejo não é capaz de acomodar-se nestas terras. Esta ausência dói, mas, também liberta. Foi preciso que um oceano demarcasse espacialmente a distância do sonos perdidos nas madrugadas estranhamente partilhadas. Nem sei como te explicar isso. Não sei se acredito nisso, mas é o que eu sinto nesse momento.
Peço emprestado as seguintes palavras sob a forma de uma
confissão...

Por outro lado, o que posso fazer é sentar no café “
A Brasileira” e dialogar com este Pessoa imortal em bronze. Aliás, faz menos de um mês (19 de novembro de 1905) que este café com mesas de mármore, lustres de cristais, paredes escuras e atendimento precário, completou 100 anos. Estranho pensar que os modernos portugueses, incluindo Sá Carneiro, Almada Negreiros, Fernando Pessoa, entre tantos, conspiraram aqui tantas idéias. Eu também “revisito Lisboa” e penso que é importante brindar com um expresso amargo (bebida tão companheira) este espaço que transpõe o tempo de maneira tão nobre. As ruas do Chiado e a literatura portuguesa nunca mais foram as mesmas depois que os modernos circularam por aqui.
Espero meus amigos, sentado nesta tarde ensolarada, numa destas mesas do “
A Brasileira”. Vamos descobrir algo para fazer. Quem sabe iremos para as velhas lojas de livros e discos, beber na praça e ter uma certeza: não há dia seguinte nesses novos tempos. E este é justamente o momento de perceber “o bem que sou capaz de infundir” à minha própria existência.
* trecho de Ana Karenina, de Tolstói.