As Cartas Lisboetas (2)
“Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir”Um sol fraquinho entra pela janela. Foi uma noite bem fria e a vontade que tenho é permanecer embaixo das cobertas. Fico aqui, quente, torcendo para que este inverno não seja gelado e esse corpo não sinta tanto as ausências que remetem a você. Preciso esticar, sair dessa cama e respirar o ar da manhã.

Não posso queixar-me deste quarto tão especial, pois, por uma sorte inexplicável, estou no sótão de um velho sobrado amarelo com três pavimentos. É assim que é a
Pensão dos Suspiros. Um lugar como o que sonhamos morar um dia, bem iluminado e com uma janelinha simpática. Coloquei a pequena mesa perto da janela e aproveito para ler meus livros e escrever para você. Estas sortes de viajante, que fazem parte da magia inexplicável que acontece na vida, de alguma forma deixam a minha tristeza ficar menor.
Ontem bebi bastante à noite. Fui jantar com meus novos conhecidos aqui da
Pensão dos Suspiros. É interessante quando encontramos pessoas, pois as velhas histórias que temos são bem-vindas e, em troca, a dos outros é tão cheia de um mundo que nos torna ansiosos por apreender. E
este lugar tem diversos quartos e portas que abrem o tempo todo. Moram aqui, apostando baixo, umas trinta pessoas e o ambiente é absolutamente fraterno. São estrangeiros que tentam a sorte em Portugal (basicamente, africanos e sul-americanos, que topam qualquer tipo de serviço).
Meu primeiro amigo é um angolano chamado Guido, mas conhecido por todos aqui como Príncipe. Sujeito alto, negro e, apesar do jeitão rude, absolutamente cordial. Príncipe é engenheiro, mestre em construção de pontes (o nome do título não é exatamente esse) e tem uma habilidade fantástica para contar histórias. A maioria delas tem um quê de fantástico para mim, uma mística repleta de divindades e heróis. O apelido “Príncipe” se deve ao fato dele ser descendente do rei de uma antiga tribo africana que, ao casar com uma italiana vinda ao país numa missão de paz, abandonou o trono.
Príncipe veio para Portugal com sua irmã, Bella, mais jovem e calada que ele. Seu objetivo era ser estudar, mas, atualmente, trabalha como garçom num restaurante em Sintra. É uma vida difícil e abre-se mão de muita coisa para estar aqui.
Fomos ao restaurante do Don contar nossas histórias. Eles me encheram com descrições cheias de curiosidades, lutas, pessoas. O sotaque dava um ritmo fantástico às narrativas. Eu me senti desconfortável com a minha vida previsível, tão cheia de lugares-comuns e sensações ordinárias. Tem momentos que a nossa história parece tão sem graça, não é?
“Mas o que você veio fazer em Lisboa?”, perguntou o Príncipe.
“Ainda estou descobrindo. Se eu te dissesse que estou tentando me entender ia parecer muito vago?”, respondi com um sorriso.
“Ora, pois”.
Retribuiu o sorriso e depois falamos de música. Ambos são loucos por música brasileira. Eu lhes contei a história da
Escadaria dos Suspiros e ficaram tão satisfeitos com a fantasia como crianças em conto de fadas. Fiquei satisfeito comigo mesmo pela forma que contei a eles. Enquanto subíamos a escada, Príncipe disse que o Chico Buarque é um gênio e começou a cantar baixinho com seu português angolano:
“Ah, se já perdemos a noção da hora....”.
Seguimos os três subindo os degraus para o hotel com uma sensação agradável e delicada.
Do seu,
DQ