As Cartas Lisboetas (1)
Novas formas para dizer “eu”:
novo jeito de andar;
novo solo;
novo céu;
nova história para decorar;
repleto de você. Minha maneira de sabotar o sofrimento é arriscar nestas cartas e emprestar-te meus olhos e sentidos para fazeres deles o que julgares.
Faço força para não entrar em detalhes, minúcias, pelo menos empenho uma medida necessária para que o meu texto tão prolixo não invada a limitação desse universo. “Como sou impaciente com o mundo!”. Mas, a medida deste exagero é uma função da urgência em falar-te e esses novos dias que aparecem.
O bairro da Mouraria é uma aventura entre paredes velhas, becos estreitos e bares minúsculos. Não é difícil se perder na semelhança das fachadas e bastante recomendável muita atenção aos detalhes, pois evitará ao visitante subir e descer escadarias desnecessariamente. Se você estivesse aqui entenderia como isso pode ser muito desagradável.
Para chegar a
Pensão dos Suspiros, onde atualmente tenho um quarto inteiro, é necessário subir uma dessas escadarias pouco generosas (a lenda diz que são mais de cem degraus), cujo charme particular a transformou em objeto de culto.
Na
Escadaria dos Suspiros, quando se chega ao topo, vê-se o Tejo a espalhar-se pelo horizonte. Os moradores dos sobrados e arredores, considerando o desafio, improvisaram um banco. É coisa bem rudimentar, basicamente cimento e madeira, mas que é ótima para recuperar o fôlego. É comum encontrar velhas senhoras sentadas com seus pacotes de mantimentos praguejando ao vento esse suplício.
Quando posso, também sento por aqui para apreciar a vista e, obviamente, sempre lembro de você. Uma curiosidade: na parede lateral paralela à escadaria muitas pessoas (a maioria turistas) deixam frases em diversos idiomas e com os mais variados propósitos.
Conhecendo os portugueses e o apego a imaginação, noto que a valorização de pequenos recantos é algo típico deles. Faz parte de uma lógica que transforma eventos cotidianos em histórias e lendas. E, aos poucos, estou me dando conta que tudo nessa região está de alguma forma conectado à
escadaria.
De todas essas histórias e lendas, transmitidas por vizinhos, comerciantes e comunidade em geral, a que mais me impressionou foi contada pelo Seu Manuel, dono da Gruta do Camões - restaurante minúsculo onde as quatro mesas e os horários absurdos atordoam a clientela -, a quem os íntimos chamam de Don. Segundo o Don, todos os anos uma turista holandesa volta à escadaria dos Suspiros em plena primavera, sempre no mesmo dia e hora. “Apaixonou-se por um gajo. Foi amor, pá”, diz enquanto me serve uma dose de um vinho Alentejano. “Um turco que estava a viver em Lisboa. Conheceram-se sob a bênção do Tejo”, o tom nitidamente demonstrava o envolvimento do narrador com a história. “Marcaram um novo encontro para o ano seguinte, mas o sujeito não retornou. Coitadinha”.
“Para localizar o amado, a moça escreveu um recado na parede e, anos após ano, faz umas marcas abaixo da mensagem, de modo a deixar marcada sua presença. Dizem que ela é gira, com cabelos ruivos ligeiramente cacheados, olhos profundos e a pele duma alvura delicada. E chora discretamente cobrindo o rosto com uma manta preta”, reflete o Don olhando-me com emoção. “Ninguém sabe seu nome ou tem mais informações. É tudo, ô pá”. Terminada a frase ele sai bruscamente para cozinha.
“É uma bela história”, pensei enquanto tomava meu vinho. E saí dali com uma sensação de vazio que atravessou o resto do jantar. Como esses portugueses são capazes de acreditar na própria ficção!
Quando retornei para casa senti uma vontade enorme de procurar os nomes na escadaria Como criança, fui observando as marcas estampadas na parede com tempo indefinido. A maioria pixações, coisas adolescentes ou políticas, e uns enormes desenhos interessantes. Também havia muitos nomes. John was here. 1999.
Quando meus olhos curiosos seguiam sem grande intenção aí, minha querida, deparei com algo que gelou a espinha: estava lá, anotada da forma como Don havia dito. Tudo lá. Aparentemente a holandesa existe. E as marcas dos anos à procura do turco estão lá, como riscos daqueles que fazem os presidiários na cela quando contam os dias de liberdade. Será isso o amor ou é ilusão de viajante?
Num impulso, empolgado com a história, deixei-te também um recado na parede paralela ao muro dos Suspiros. Mas nunca te contarei o que escrevi. Nunca.
Do seu,
DQ.