A tatuagem inexistente

Ao contrário do que esta cena determina, isto é, abandono e ausência, e dos gritos do meu estômago em movimentos loucos, reconheço que me sinto estranhamente confortável. São lágrimas doces estas que chegam aos meus lábios. Difícil explicar o limite entre a frustração do porvir e a consciência implícita de que seriam necessárias tantas virtudes que nem sei se posso te oferecer. Não por falta de merecimento da tua parte, antes, por egoísmo. No posfácio dessa história, desse ultimo capítulo inacabado, no mesmo momento em que ficaste sozinha neste quarto por umas poucas horas, também te escrevi e, como o destino escolheu, estas linhas jazem repousadas no bolso e as rosas vermelhas desbotam sobre a mesa. É uma carta, ou melhor, um bilhete não lido por você e, a essa altura, um fóssil da nossa breve história de amor. Mesmo assim:
Buenos Aires, 23 de outubro.
Estamos nós dois ingenuamente perdidos nesta cidade. Aqui todos falam de um jeito diferente e pensam o mundo com outros sentidos. O táxi tem outra cor, o ritmo tem outro compasso. Tango. De alguma forma, isto nos aperta mais ainda um ao outro. Nos acolhemos ao colo alheio alternando o tempo de ser dono e gato.
Devo admitir que me comove o teu jeito, para mim doce e, ao mesmo tempo, aos outros recheado de amarguras e vigor. Não tenho explicação clara para isso. Se tivesse, é bem provável que o guardasse para eternamente.
Toda essa nossa história suspende a minha admirável estabilidade, vasculha minhas gavetas, armários e prateleiras. E me vejo anotando novas palavras para você e fazendo cálculos para novas rotas. Desde pequeno sou assim: planejo. Como se para mim não fosse suficiente apenas sonhar, mas sempre necessário rascunhar mapas, manipular fórmulas, articular probabilidades e, principalmente, preencher as folhas em branco com meus delírios articulados. Foi tão difícil aprender a não desejar os sonhos! Custou-me anos de inexplicável busca.
Estou muito atento a tudo isso e, ainda que meus sentidos cocem de forma acelerada, controlo. É uma lição: posso controlar, mas não posso elimina-los. Estar com você é a prova de que eu não estou curado das minhas melhores doenças. Estar com você é o reconhecimento da minha incapacidade de fechar os olhos à beleza que explode no meu peito. Estar com você é ainda querer o delírio.
Entrego-te minha confidência, esta carta acompanhada de dois capuccinos e água com gás, para dizer que não tenho medo dessa nossa expedição. Já não posso mais resistir ao teu canto mágico e, se você me levar ao fundo deste oceano, verás que sou apenas sorrisos e que te seguro firme pelas mãos. Escolhi o mesmo lugar de ontem - quando contamos mais coisas sobre a vida - para te dedicar esse meu desejo de usar um pedaço dos novos dias juntos. Espero que isso te provoque sentimentos bons e uma vontade imensa de te acomodares no meu colo. Ronronando....