QuartoInteiro
segunda-feira, novembro 07, 2005
  Cotidiano -1

Quando a gente perde, é inevitável essa sensação de que o engano anda pendurado nos nossos ombros e está a rir da nossa cara. Afinal, ninguém gosta de ver o indicador alheio balançando alternadamente de um lado para o outro. NÃO. E os casacos ficam estranhamente mais apertados nesses dias.

Mas, o que sobra depois de um banquete? Se a fartura era tanta e os restos ainda são virtuosos. Suculentos. No meu caso, basicamente, tomar um porre de mim mesmo, essa água-ardente que enjoa o estômago. Peço ao tempo me esqueça num canto qualquer enquanto escorrego num compasso lento. O dono do bar sabe a razão de eu estar ali. É comercialmente solidário com a minha dor. É cúmplice. Quero viver a angústia deste personagem que jaz no canto deste bar. As luzes são cúmplices. O céu negro e carregado é cúmplice. A mulher excessivamente maquiada e que fuma um cigarro atrás do outro, alternando doses de Campari em copo alto com muito gelo, é cúmplice. O batom vermelho, contornando os lábios finos lhe dá um ar estranho. Ares de cobra. E aquele rosto quando sair pela rua será salpicado pelos pingos da chuva que certamente cairá daqui a pouco. A máscara pálida se dissolverá, ela vai chegar no apartamento quarto-sala para fazer um café amargo e reconhecer o fato de que novamente foi deixada de lado. E vai sonhar com amanhã. Mesmo lugar, mesma hora, mesma máscara. Essas circunstâncias me fazem cúmplice do meu personagem. Sou impelido a deixar meus dedos amarrados até que outra coisa aconteça. Até o fim.

Sei da tarefa inevitável de sovar a massa com cuidado, misturar os mesmos elementos numa medida anotada, decorada. Todos os destinos caminham nessa direção. De forma mecânica, letárgica, estirarei sob a mesa a minha parte nesse todo em unidades menores do meu eu: frações simétricas, uníssonas. Mas isso é amanhã. Ou depois, ou quando for preciso...

Especificamente hoje a cidade tem umas cores diferentes. O caminho está diferente. As plantas no corredor estão diferentes. Até o peixe no aquário está diferente.

Não é de se estranhar que eu sinta algum conforto nisso. Débil, reconheço.

Distante, eu acompanho Dona Estultícia.
Foto: Laurie Simmons
 
Comentários:
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(Mas, o que sobra depois de um banquete? Se a fartura era tanta e os restos ainda são virtuosos) Isso tá bárbaro! Beijo meu. Muitão!
 
pode ser que vc esteja diferente...

uau.
 
tudo está diferente, você nem fala mais no Dr. Cohen. Mas até quando?

Ah! Ela te supera, mas você já sabe disso.
 
a cidade, as cores, o caminho, as plantas, o peixe... "tudo aquilo com que deus circunda tão generosamente a solidão humana". beijo.
 
Pelo amor de deus... dê notícias...
 
Indigestão!!! Sobra a soberba e a rebordosa da gula!!! Indigestão de amor é a pior de todas as mazelas...

abraços, parabéns
 
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