Cotidiano -1

Quando a gente perde, é inevitável essa sensação de que o engano anda pendurado nos nossos ombros e está a rir da nossa cara. Afinal, ninguém gosta de ver o indicador alheio balançando alternadamente de um lado para o outro.
NÃO. E os casacos ficam estranhamente mais apertados nesses dias.
Mas, o que sobra depois de um banquete? Se a fartura era tanta e os restos ainda são virtuosos. Suculentos. No meu caso, basicamente, tomar um porre de mim mesmo, essa água-ardente que enjoa o estômago. Peço ao tempo me esqueça num canto qualquer enquanto escorrego num compasso lento. O dono do bar sabe a razão de eu estar ali. É comercialmente solidário com a minha dor. É cúmplice. Quero viver a angústia deste personagem que jaz no canto deste bar. As luzes são cúmplices. O céu negro e carregado é cúmplice. A mulher excessivamente maquiada e que fuma um cigarro atrás do outro, alternando doses de Campari em copo alto com muito gelo, é cúmplice. O batom vermelho, contornando os lábios finos lhe dá um ar estranho. Ares de cobra. E aquele rosto quando sair pela rua será salpicado pelos pingos da chuva que certamente cairá daqui a pouco. A máscara pálida se dissolverá, ela vai chegar no apartamento quarto-sala para fazer um café amargo e reconhecer o fato de que novamente foi deixada de lado. E vai sonhar com amanhã. Mesmo lugar, mesma hora, mesma máscara. Essas circunstâncias me fazem cúmplice do meu personagem. Sou impelido a deixar meus dedos amarrados até que outra coisa aconteça. Até o fim.
Sei da tarefa inevitável de sovar a massa com cuidado, misturar os mesmos elementos numa medida anotada, decorada. Todos os destinos caminham nessa direção. De forma mecânica, letárgica, estirarei sob a mesa a minha parte nesse todo em unidades menores do meu eu: frações simétricas, uníssonas. Mas isso é amanhã. Ou depois, ou quando for preciso...
Especificamente hoje a cidade tem umas cores diferentes. O caminho está diferente. As plantas no corredor estão diferentes. Até o peixe no aquário está diferente.
Não é de se estranhar que eu sinta algum conforto nisso. Débil, reconheço.
Distante, eu acompanho Dona Estultícia.Foto: Laurie Simmons