QuartoInteiro
segunda-feira, outubro 17, 2005
  Espera

Aguardo tua chegada ansioso e com certa prudência. Entre um café e um cigarro folheio as páginas do Clarín e o idioma daqui recai sobre as minhas lembranças. Tempos passados: a vida nem parece minha quando visito as memórias. São boas imagens e fico cheio de um sentimento inexplicavelmente ensolarado. Ao contrário de flertarmos com a loucura na clínica do dr. Cohen, achei melhor deslizarmos por entre as ruas de Buenos Aires. Entre tangos e tintos. Enviei as passagens para o endereço que havias anotado em um papel qualquer, cujo verso trazia anúncios de uma agência de turismo. Destinos. Confesso que foi daí que me veio esta idéia. Não quis te consultar e não tenho certeza da tua chegada. Entre o meu desejo e as coisas da tua vida existem tantos espaços vazios. Não tenho certeza de nada (não quero realmente ter).

Posso apenas esperar nesse café, na fina mesa com toalhas brancas à minha frente, bem posicionado em uma rua de Palermo . O dia está frio e o sol acomoda os ombros. As pessoas caminham apressadas para seus compromissos e grupos de homens vestidos em ternos alinhados trocam idéias sob o sol. Fico pensando nessas coisas e me vêm à mente o fato que nos falamos apenas uma vez. Tudo instantâneo e certeiro. Depois incessantes e-mails (e já não escrevemos mais cartas e a caligrafia é substituída por fontes de computador).

O quarto que nos reservei na pousada é bonito. É um lugar especial cujos donos são uns amigos surgidos há alguns anos. Preocupa o fato de me sentir assim tão íntimo e te expor um mundo que guardei durante anos em sigilo (como quem plajena uma fuga). Naqueles tempos, eu vinha para cá era freqüentemente. Não sei se fiz bem comprar as passagens sem saber dos teus compromissos. Por ora, me sinto inocente em achar que umas poucas noites circulando pelas ruas e histórias do velho bairro de San Telmo (meu preferido!) estabelecem novas portas na vida de qualquer pessoa.

Estou anotando essas histórias no meu bloco e não sei se algum dia mostrarei estas linhas para você. Oscilo pensar se é verdade o que está acontecendo ou se tudo é mera literatura, fruto das nossas mentes entupidas por romances. O que eu sei é que estou te esperando e o relógio espeta agulhas no meu estômago. Espera....

sentado no café aguardando Dona Estultícia.
 
Comentários:
meudeus! Então é isso! Você aqui, e Ana lá. Os dois a se encontrar, e eu tendo o privilégio de ser deus, onisciente, onipresente, to sabendo de tudo que eles pensam. E é verdade? ou é tudo mera literatura, fruto das nossas mentes entupidas por romances?
E Marco? E dona estultícia?

encontros..
 
se for mera literatura: "algo para ser pendurado na parede e exposto a observação repetida". preciso de mais um café...
 
Chloè, acho que também preciso demais de um café..
 
vocês estão deixando os mortais ansiosos. já estabeleci inclusive uma rotina para retornar aqui e me espantar com... tenho uma suspeita, nada óbvio, garanto. aguardo.

maestro, mais um café!
 
Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]





<< Página inicial

Arquivos
agosto 2005 / setembro 2005 / outubro 2005 / novembro 2005 / dezembro 2005 / janeiro 2006 / fevereiro 2006 / março 2006 / abril 2006 / maio 2006 / junho 2006 / agosto 2006 / setembro 2006 / outubro 2006 / novembro 2006 / dezembro 2006 / janeiro 2007 /


Powered by Blogger

Assinar
Comentários [Atom]