QuartoInteiro
terça-feira, outubro 25, 2005
  Delírios de um rodapé notívago
Por que, com teus encantamentos infernais, arrancaste-me à tranqüilidade da minha primeira vida... O sol e lua brilhavam para mim sem artifício; acordava entre aprazíveis pensamentos e, ao amanhecer, dobrava as folhas para rezar minhas orações. Não via nada de mau, pois não tinha olhos; não escutava nada de mau, pois não tinha ouvidos; mas hei de me vingar!
*Discurso da mandrágora, em Isabel do Egito, de Achim Von Arnim
** O jogo da Amarelinha, Cortázar


Será que você dormiu? Movimento meu corpo, lentamente, calculando os espaços de maneira que você se acomode na cama suavemente na minha ausência. Nas duas últimas duas horas de silêncio, observo tua respiração e passo o tempo pensando que leio os teus sonhos. Bate um resto de luz pela janela e, ao invés do escuro, estamos envoltos na bruma vermelha vinda do luminoso de néon que insiste anunciar nosso paradeiro: Florescente Hotel. Caso contrário, eu mesmo desconfiaria se estamos realmente aqui deitados, exaustos, apreensivos.

Teus olhos fechados e as mãos delicadas próximas à boca te dão ares de criança. Os lábios vermelhos e inchados de beijos, mordidas e adjetivos estão ainda mais bonitos. As palavras arras trocadas com o calor infernal do sexo, agora são substituídas por uma ternura inominável. (Tudo nesse momento é inominável). O lençol que não cobre as tuas meias brancas é inominável. Teu cabelo preto e macio é inominável. Você se mexe um pouco. Suspira. Inominável. Ouço som de um tango vindo de uma casa próxima daqui. Imóvel, tento ouvi-lo melhor.

A mobília desse quarto é simples. Sento numa cadeira dura e são nesses móveis antigos, de aspecto escolar e decoração duvidosa, onde relaxo pela primeira vez desde que cheguei aqui. Como é ser você? E quero te dizer coisas tão contraditórias que só o meu cigarro consegue compreender. Apreensivo demais para te falar que a situação está me exigindo além do que imaginava. Espaços que, antes, pensava fechados e agora estão reabertos. Eu não sei quem você é. Eu não sei quem eu sou. E se soubéssemos não estaríamos aqui. A fumaça do cigarro dá um aspecto bonito quando atravessa a luz vermelha que inunda o quarto.

Queria ir embora daqui, mas meus pés estão pregados ao chão. Essa nova rota aberta na minha frente me trará desconforto longitudinal. Eu sei disso... juro que sei. Mas, será que podemos ficar distantes um do outro? Será que eu consigo viver num mundo distante sabendo da tua presença nesta cama? Sou um tolo imaturo com pensamentos que não combinam com esses fios de cabelo branco. Amanhã, tomaremos nosso café na padaria aqui perto. Em seguida, de mãos dadas, andaremos pelos jardins que existem no caminho. Direi que acho lindo esse vestido rosa-chá e seu rosto ficará levemente corado. O tango persiste, monótono.

Hesito em sair correndo por essa porta. Sinto sono.

(Ainda estamos aqui...)

Dona Estultícia anda aqui do lado.
* Foto:Nan Goldin
 
Comentários:
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O nome é maravilhoso: " Quarto Inteiro". Eu só vou precisar de mais tempo pra ler os demais posts, que, se mantido o clima desse "Delírios de um rodapé..." vai ser mesmo um delírio. Gostei muito, viu? Passa uma temperatura meio de filme noir, meio de Bresson...e pq não, Cortázar. Não por menos a epígrafe dele inicial.
abçs e obrigado pela visita por lá
Ilidio
 
"Como é ser você?" ... ei aqui um Kibbutz!!! Pra onde será que vão esses rios metafísicos? ... ótima!!! beijos
 
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