QuartoInteiro
sexta-feira, outubro 07, 2005
 


Acho que as minhas palavras ecoaram de forma estranha em mim. E, quando penso nessa medida, sinto o meu tédio com as letras crescer intolerante. Não tenho sedução na pictografia e nos grafismos de letras cursivas bem formadas, do elegante “ô” e do regular “tê”. Cansam os círculos metafóricos onde penetramos imagens abstratas na cabeça do outro (o leitor) e nem tenho prazer no balanço das rimas: semântica; sintática. Se há onde buscar uma referência para essa estranha síndrome e, como é da tradição, busca-se na raiz de onde aprendemos ser a verdadeira culpa, cito a minha avó materna, uma jovem pianista clássica que, vinda para o Brasil em fuga na década de 30, perdeu três dedos da mão esquerda em um acidente e dedicou-se, então, à escrever poesia nas horas vagas. Quando furiosa repetia sempre que era passatempo de preguiçosos frustrados. Dizia que nunca ia querer filho ou neto artista. Nunca. E, com a mesma impaciência que dispunha para ler versos de outros, sua caneta seguia em alexandrinos guardados secretamente de todos. Após sua morte e, dos espólios devidamente confiscados e corrompidos, sobrou para minha mãe o velho baú, pesado e maciço, onde atrevi a destruir o cadeado e profanar seus poemas proibidos. Realmente achei-os enfadonhos e banais. De lá pra cá não consigo disfarçar esse contragosto com o valor das palavras.

Devo dizer-te, então, que há várias maneiras de ler aquilo que não foi escrito. Deixo para você, cuja habilidade notável com as palavras é superior em muito a minha, a tarefa de vasculhar meu texto intimamente, revirar-lhe as costas e descontaminar nossos olhares tão viciados. E, do inferno que se vive das palavras desajeitadas, retire algo de doce para os teus sentidos. Sei que é uma tarefa estranha, monótona, mas você é a única que posso confiar esse desejo.

Confesso que tenho atitudes estranhas o tempo todo, reflexos formais que eu mesmo escorrego do controle. É como o hábito de levar ao cigarro à boca e senti-lo entre os lábios, o calor aconchegante da fumaça invadindo o corpo. É estranho, pois há mais de 15 anos que parei de fumar, ainda hoje me vejo com os beiços em movimento e o corpo simulando angústias. Minha cabeça mais leve e a mão flutuando escreve impressões em idioma informal semelhante a uma canção. Sinto esse formigar na ponta dos dedos e, sob a ausência de certos hábitos, fujo para as letras como minha avó. De algum modo, da sua loucura eu retiro uma necessidade de deitar no chão reconfortante de um parque em dia de sol. Uma angústia brutal em te mostrar que a vida não é tão metafórica, não é tão texto assim. O futuro é totalmente previsível, mas este agora indecifrável nos justifica aqui. É dele que vivo, desta fumaça que se espalha no ar e foge livre para todos os espaços. Exatamente isso que quero compartilhar contigo, numa ausência de nomes e adjetivos para as coisas que se passam neste tempo breve. Danem-se estas ilusões onde supostamente depositamos o óbvio amanhã.
Danem-se as impressões. Danem-se as recordações do futuro.

com o peso e a leveza das palavras: Dona Estultícia.
** ilustração de Akino Kondoh
 
Comentários:
Palavras pra comer todas. Pra gente ler e confundir. Os outros. Pra contar segredos. Pra deixar subjetivamente, metaforicamente e quem sabe ainda em círculos, cravadas mensagens indeléveis, instintivas e absolutamente lindas, em desenhos que a primeira vista não conseguimos sequer compreender. Bjo.
 
faz sentido eu dizer que isso aqui tem quase ar?

Camila
eloquencia.blogger.com.br
 
Eu preciso saber algo além dos seus textos. Não me satisfaço com o desconhecido. Preciso imaginar um rosto, nos seus escritos ainda não consigo delinear o seu.
Qual será?
 
Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]





<< Página inicial

Arquivos
agosto 2005 / setembro 2005 / outubro 2005 / novembro 2005 / dezembro 2005 / janeiro 2006 / fevereiro 2006 / março 2006 / abril 2006 / maio 2006 / junho 2006 / agosto 2006 / setembro 2006 / outubro 2006 / novembro 2006 / dezembro 2006 / janeiro 2007 /


Powered by Blogger

Assinar
Comentários [Atom]