Pequenas lições que resgatamos em algum baú de memórias para juntar na massa que ao longo dos anos selará as paredes do eu. Como não pode ser diferente, as memórias reverberam dentro das nossas cabeças ocas. Comigo, algumas passagens se deram de forma absolutamente natural e nunca me importei muito com essas coisas de sangue, merda, pasto, latidos e grunhidos. Minha avó paterna ensinou onde ficava o açougue (ao lado da fruteira), depois olhou bem nos meus olhos e perguntou: aprendeste? Daquele dia em diante eu fui às compras sozinho. O açougueiro tinha uma cara bonachona que nem combinava muito com aquele avental de plástico sujo de sangue. Pegava um naco de carne com habilidade e prazer, ficando resto daquilo que não havia sido empacotado em papel pardo entre as suas unhas. No primeiro caminho que fiz em direção ao açougue com minha avó formatamos coisas que, hoje, ocupam uma dimensão profunda.
Esse momento foi marcado por novas regras: não fale com estranhos; atravesse somente quando o sinal estiver fechado e as outras pessoas atravessarem; atravesse entre as pessoas; na dúvida, nunca corra; olhe sempre para os lados. Senti pela primeira vez o olhar sério de um adulto, coisa que eu registrei e minha vida foi um pouco diferente depois daquele. Meu pai fez esse ritual comigo muitas vezes e de alguma forma eu me julgava mais preparado para a vida.
Carrego essas bagagens sem me dar conta. Lembro, também, do dia de finados, tão comemorado durante um tempo quanto Natal. Era o dia de comprar flores, vestir preto e as senhoras usando grandes chales de tricô cobrindo a cabeça. As velhas e jovens pareciam fadistas numa convenção. Toda a minha família visitava o túmulo do meu avô. Eu seguia, seguro pela mão forte do meu pai, lendo inscrições em lápides: Amou e foi amado nesta vida; fica a saudade daqueles que continuam aqui. De tal sorte que, ao contrário de medo, aquela coisa de finados tinha tanto de amor, tanto de carinho e buquês de flores coloridas. Havia choro, sim. Mas era um choro saudoso. E, mesmo uns pequeninos caixões brancos não me causavam nenhum tipo de inquietação. Uma vez ouvi: eram os anjinhos voltando para o céu! Cheguei mesmo a sentir inveja dos meninos-anjos que retornavam ao céu ideal herdado de uma católica.
Por isso, a morte não me assusta. Nem mesmo em seus aspectos mais terríveis. Fui bem prevenido e tenho mais cuidado com as coisas vivas e pulsantes. Atentamente observo aos mais vivos, cujos corações parecem bater demais – o meu mesmo já pregou tantas peças!
Um refrão de música: cuántas veces tendré que morir para ser siempre yo?Daqui você também pode passear com Dona Estultícia.