(in)feliz mente
[deitados]
- Sabe...
- Ah, antes que eu esqueça, deixei o dinheiro em cima da geladeira. Cinquenta é para pagar o encanador e o resto é do condomínio, certo? Agora só falta o piso da cozinha.
Mudando de assunto, ontem eu comi um pudim ótimo no almoço. Nem te conto...
- Bem...
- Ah, tu prefere aquele do restaurante vegetariano, né fofucho? Além disso, essa de dieta, vida saudável e, no final do dia, croquete e cerveja. [ela ri]
[silêncio breve]
- Ultimamente eu tenho sempre a sensação de que você não presta mais atenção em mim e no que eu te digo.
- Como? Desculpe, eu tava pensando noutra coisa? Acho até que já tava cochilando. Que sono!!!!
- Esquece. Boa noite!
[luzes apagadas]
Então, ela dobrou o bilhete ao meio e pregou-o na geladeira. E só depois de algum tempo se deu conta do que tinha feito. Mas, aí, as malas já estavam prontas. Diante disso, ele manteve-se imóvel e, aparentemente, todos os dias tinham o mesmo ar obtuso. Um dia, quando ela resolveu aparecer depois de alguns meses, ele trouxe o mesmo papel onde ela havia deixado o seu recado. E, ali, repousaram as únicas palavras que ele dispensou ao acontecido. Entregou para ela e saiu. Foi a última vez que se viram.
É claro que dói. Dói pra caramba! Nem todas lembranças são tão perenes quanto outras. Escondo, como todo mundo esconde (e nem vejo mérito nenhum nisso) e, na verdade, vou disfarçar até o fim. Enquanto isso, a coisa morre em segredo diante dos nossos olhos abertos. Até o dia que se tranforma em passado.
A hora da fome (ou como fazer um título tão grande quanto o conteúdo)
Você tem certeza que repartiu direito?
Olha, fiz o melhor que pude. Achas que teria feito melhor?
Como é que posso saber? Você dividiu tudo.
Truques e trapaças
"Esta moça deixaria tonto o próprio santo Tomás – comentou Oliveira.
Por que Santo Tomás? – perguntou a Maga. Será o idiota que sempre queria ver para acreditar?
Esse mesmo, minha querida – respondeu Oliveira, pensando que no fundo, a Maga tinha invocado o verdadeiro santo.Tinha a felicidade de poder acreditar sem ver, de poder formar um corpo com a duração, com o contínuo da vida. Tinha a felicidade de se encontrar dentro do quarto, de ter direito de cidadania em tudo o que tocava e em todos aqueles com quem convivia, peixe nadando no rio, folha na árvore, nuvem no céu, imagem no poema. Peixe, folha, nuvem, imagem: exatamente isso, a não ser que...." em O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar.Dias ensolarados e frios deixam uma alegria confortável. São tempos para abrir a janela e sentir o contraste do azul perfeito e o cinza das fachadas; diversos cartazes colados no tapume da obra; o diálogo dos carros na avenida e, ao fundo, os diferentes verdes das árvores: uma coisa só. Coloco a água na chaleira e aproveito o vapor para aquecer a ponta dos dedos. Ali parado - esperando entre uma coisa e outra - penso na frase que me acompanha há dias: a felicidade é um truque. Certamente, pensar nisso é coisa de desocupado, tenho certeza, e isso reforça mais ainda minha vontade de pensar.
Diabos!!!!!!!
Fico enrolando mil maneiras de perceber uma coisa que, ao bem da verdade, oscila entre o simples, direto e mísero lugar-comum (quase uma banalização) e daí surge o dialogo com esta folha.
Nota importante –
a) o corpo realmente se transforma mediante ao contentamento: corado, lustroso;
b) as pessoas nos rodeiam ao ver nossos olhos brilhando com facilidade;
c) o velho da banca de jornal puxa um assunto mais interessado;
d) as mulheres se sentem bem acomodadas dentro de sorrisos.
É difícil para um ocioso convicto, cujo passatempo é inserir idéias ao cotidiano para viver das suas reflexões egoístas, aceitar estas coisas e, depois, concluir que realmente a partir de um truque pode estar a solução de inúmeros dilemas metafísicos. (Truque sempre me pareceu uma palavra baixa, rasteira, medíocre).
Mas, afinal, o que é esse truque?
Preciso de um certo ritual tal como tomar um café recém-passado na janela antes de escrever. Temperatura lá fora: 10 graus. O contraste do café quente com o ar frio é agradável. O Gato se enrosca no meu pé como se dissesse que quer entrar para esta história. É um gato alugado, possivelmente herança do antigo morador desse quarto e, conclusivamente, o dono deste espaço pedaço. Gordo, peludo e ordinário, para mim ele se chamará para sempre “Gato”. Assim, o dia que eu for embora não me sentirei tão mal. Tenho uma excelente memória associativa.
Eis que surge uma personagem:
sentado na poltrona do escritório, um homem olha a foto na mesa e depois para um ponto infinito na janela. Pensa nas próximas férias. No novo modelo de automóvel lançado exclusivamente pela internet. O prédio dos sonhos - piscina e varanda. Um colégio arborizado para o filho correr pelos gramados nos intervalos. Um amor de cabelos sedosos e longos dormindo espalhada pelo lençol vermelho.Entre o sufoco e a acomodação no futuro do presente - nos interstícios da razão – será que temos algum truque disfarçado? Cairemos na hipótese de trapacear o real? É o truque? Naquilo que chamamos de objetivo, meta, sonho, ou, na verdade, a constatação de despertar: todo o passado se transforma efetivamente em ilusão.
No que pensará o homem sentado na cadeira?
Duas pessoas. O sol é o de sempre. O banco da praça é o de sempre. Até o mendigo (devidamente esculhambado por nós)estendido sobre o banco guarnecido pela melhor sombra da figueira é o de sempre. Tudo tem essa impressão de continuidade.
Nenhum vento sopra. O horário de almoço está quase terminando. Eles ali, sentados, com as barrigas vazias e os sentidos confusos."Podia ter acontecido com qualquer um. Certamente. Fatalidade talvez, erro, engano. Tantas coisas que fazem parte desse dia imenso. Foi contigo, bem sei, mas nesse momento certamente outras tantas pessoas estão passando por isso e assim que é."
"É mas aconteceu comigo, será que você consegue entender isso?"
** Imagem = A Minute of My Time (autor: Micah Lexier)