QuartoInteiro
segunda-feira, janeiro 30, 2006
 
Meu nome é... deixa eu ver....bem, isso não importa. Não mesmo. Falo pouco para ter nome. Penso compulsivamente, em doses cavalares, isso é verdade, mas, conclusivamente, falo muito pouco para ser importante a ponto de você precisar do meu nome. E, além do mais, na esteira dessas coisas que conversamos, sei que você sente uma necessidade absurda de nominar as coisas. Sim, todas as suas coisas precisam de nomes para serem colocadas devidamente nas gavetas etiquetadas e formalmente organizadas em ordem alfanumérica. Por isso, no meu caso, você terá de transigir. Ou, então, deixar-me numa pasta qualquer chamada de “Diversos”. E, estarei ali com minhas poucas palavras e com a cabeça explodindo de idéias. Você sabe disso. Eu contei. Contudo, as idéias são tão transparentes quanto fadas. E, nem mesmo eu acredito em fadas.

De qualquer forma, estamos livres. Eu, colocado de forma aleatória como é do meu costume. Corro risco, afinal ser aleatório com alguém como você é um risco tremendo. Inominável. Você, ao contrário, sempre fez questão de que eu soubesse (e visse) todas as suas coisas e supõe que fez isso de forma bem clara. Gramaticalmente. Insisto em dizer-te que a tua gramática está em mutação. Você fica irritada e faz dezenas de protestos.

Hããããã?? se eu tenho certeza? Não, não tenho. Tenho certeza de pouquíssimas coisas. Por isso, penso muito mais do que falo. Para não ter que ficar por aí procurando certezas. Sinceramente, tenho preguiça de ter muitas certezas. É como equilibrar pratos em varetas e conheço poucas pessoas com essa habilidade. Não sou uma delas. O máximo que tenho são constatações mínimas e cotidianas. E sonhos.
 
quinta-feira, janeiro 05, 2006
  Eu revisited (notas dispersas para cafés)
Sentamos lado a lado no banco da praça. Cinco horas juntos, talvez mais. Aparentemente, nada tínhamos guardado dos últimos dias e daquela distância glacial que se impunha necessária ao esquecimento do recíproco, das palavras rudes, duras, sinistras. Esses foram dias em que o mundo se espatifava na nossa frente por qualquer “ai” expresso sem muito traquejo e qualquer cisco no olho era a prova definitiva para uma cegueira mortal.
Mas, de repente, tudo havia se dissipado de tal forma que, no meu íntimo, sobravam sensações contraditórias. E ficamos ali na sombra agradável, esperando que o tempo passasse e nos mantivesse juntos naquele existir mais do que confortável. Sentíamos o prazer límpido das flores, a nostalgia do futuro, o cheiro e o gosto conhecidos. Seguros naquele banco de uma segurança emocionante.
Mas, o silêncio que em princípio pareceu mágico aos poucos sufocava. Tenho medo desse medo que sinto, pensei. Já conheço esse caminho.
E, antes que eu seguisse nestas ilações, as entranhas abriram fogo e cuspiram palavras aprisionadas, as palavras de um outro: sofredor, angustiado, tenso. Eram as palavras de uma psiquê sufocada e carente. Desprenderam-se de mim sem destino certo e, curiosamente, viraram as provas para algo terrível. Atingiram o alvo mais errado possível e a eternidade do nosso momento, agora, se dissolvia como açúcar na água. Os tempos eram outros e, paradoxalmente, sempre, sempre os mesmos.

Armado, esperei o tapa recíproco que não veio. Em vez disso, um silêncio cristalino e a angustia de dois olhos desmotivados. As palavras foram diminuindo, diminuindo e, por fim, redundaram num sussurro e em lágrimas desastradas. O meu outro eu, infelizmente, existia. E era indesejado, desnecessário, sobressalente. E mesmo assim eu o queria, preciso dele, pensei.

Os olhos desmotivados me emprestaram sua alma e a sensação estranha agora era tudo que restava no jardim. Ainda não eram seis horas, certamente não.
 

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