"Lerás porém algum diaMeus versos d'alma arrancados,D'amargo pranto banhados,Com sangue escritos; — e entãoConfio que te comovas,Que a minha dor te apiadeQue chores, não de saudade,Nem de amor, — de compaixão." (Gonçalves Dias, Ainda uma vez - Adeus)Desde ontem, quando despejasse para o mundo tuas palavras e deste vários nomes e adjetivos para tudo fiquei com uma sensação de vazio fulminante. Hoje o dia está tão cinzento, chuvoso e frio. Passei o tempo todo em casa. Da minha mesa - que fica bem perto da janela - escrevo essas linhas para confessar: pensei em cravar nas tuas costas um punhal de exata medida e sufocar-te com algumas de minhas ânsias para mostrar que eu também sou capaz gritar. Conseguiria? Duvido. Tão pouco verdadeiro era esse intuito que estancou agora, neste exato momento, quando alguém cruza a rua correndo da chuva lá fora. Anônimo entre os guarda-chuvas. Eu ainda estou na mesma mesa e olho pela janela. Desde ontem. Uma menina de casaco amarelo e sobrinha transparente espera com um sorriso o anônimo. Que metafísica é essa submetemos nosso mundo para justificar os braços abertos e sorrisos que esperam do outro lado da rua?
Este quarto abre algumas janelas para
Dona Estultícia.
Será mesmo que essa vontade - que você chama de sua - é real? Então, que troca existe se afinal, esta chama que, como bem disseste é tua, dramaticamente exige retorno? Em pleno vôo, quem sabe, você tenha me acusado de uma queda qualquer. Logo eu, que quedava por mim mesmo: um elástico frouxo. Deixaste para mim, além da tua vontade, muito mais. Um triste insulto, um passaporte para o inferno e uma canção mórbida de alguém cuja vontade negada origina sinfonias. Biscoitos apodrecem na lata, amofinados e esquecidos. Não devo ser muito mais que outro cookie. Devo te dizer “não”? Como marionete, sou pouco mais que carne morta, pouco mais que uma abjeta figura construída a partir de escatologias, então por que me queres no inferno? O inferno é aqui. O inferno são as tuas malditas convicções, esse aço que corta e desmancha diante do mundo. Pergunto novamente (grito na inércia do espaço essas palavras): o que é essa tua vontade? Não será um a ausência de um garboso espelho, daqueles em que a gente pergunta: espelho, espelho meu? Alguém mais do que você mesma pode reconhecer essa vontade? Sinto muito, mas depois da veia seca, do sangue seco, da carne decomposta, quantas outras carnes mortas se servirá o teu apetite? Recluso, na sombra do que me criaste, recuso a te deixar cair. Só os verdadeiros admitem que não somos capazes do absoluto. Vacilo, mas não exorto. Aos corajosos só resta, afinal, mérito. A mim, quem sabe, ser espelho, marionete e sangue.